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quarta-feira, junho 12, 2013

Adaptação

"Era um técnico organizado, metódico e um líder por natureza. Com ele não havia treinos iguais e chegava muito facilmente aos jogadores. Nas duas épocas em que aqui esteve, fizemos um grande percurso na Taça de Portugal. Quando fomos eliminados pelo FC Porto, ele disse-me que ia jogar no Dragão como a equipa jogava sempre e ao intervalo tínhamos 50% de posse de bola",

Amândio Dias, presidente do Pinhalnovense, sobre Paulo Fonseca.


Hoje em dia muito se fala em adaptação, e na grande importância que ela tem para o futebol. Os anteriores sucessos das equipas italianas nesse estilo, e mais recentemente com José Mourinho essa capacidade em moldar a nossa equipa ao adversário, ficou super-estimada. É um facto que quando as equipas estão bem preparadas, com conhecimento do adversário, pontos fortes e pontos fracos, caso consiga aproveitar bem as fragilidades, poderá ter uma grande margem de sucesso, em número. O grande problema que coloco é, o facto desse tipo de abordagem depender em demasia, daquilo que o adversário nos vá apresentar, naquele momento específico. Então, estamos a trabalhar sobre coisas que não podemos controlar. Não discuto a importância da vertente estratégica do jogo, mas acho, sinceramente, que a obsessão e a relevância que tem sido dada a essa vertente é absurda. Não há, para mim, melhor estratégia que depender, apenas, de nós, fazendo o jogo que estamos habituados a fazer.

Digo isto, porque o mais importante para uma equipa de futebol, é o desenvolver de uma identidade colectiva. E essa identidade só se desenvolverá, no caso de o treino, o feedback, e o comportamento da equipa técnica for congruente com a ideia de jogo que defende 99% das vezes, e se calhar 99% é pouco. A obsessão pela adaptação, confunde princípios, baralha as interacções criadas, e torna a equipa mais fraca. Uma equipa que se adapta de semana à semana aos adversários que defronta, nunca vai ser colectivamente forte, isto porque nunca teve, em jogo e em treino, oportunidade de estabelecer relações próprias e um elo de ligação comum, que os torna verdadeiramente únicos, aquilo a que geralmente se chama "jogar de olhos fechados".
O que ganha campeonatos, são precisamente regularidades apresentadas pela equipa, a impressão digital instruída pelo treinador e desenhada pelos jogadores. Com a adaptação podemos, no máximo, conseguir sair vencedores em competições a eliminar, onde a sorte e os detalhes jogam um papel importante. O próprio José Mourinho, que hoje é um treinador diferente do que conheci, dizia que ele não encaixava a equipa dele em nenhuma, se os outros assim o entendessem, que encaixassem a equipa deles na sua. Isto, porque nesta fase, ele entendia que as colectividades eram tão mais fortes, quanto mais desenvolvidas fossem dentro do seu próprio estilo. 

O jogo, deve ser uma consequência do trabalho semanal, e o trabalho semanal deve ser consequência do jogo anterior. Trabalhar sobre os pontos fracos da equipa, mais do que sobre pontos fracos do adversário, reforçar e melhorar os pontos fortes da equipa mais do que trabalhar pontos fortes do adversário. A adaptação ao adversário deve ser, sempre, congruente com aquilo que é a nossa forma de jogar, com aquilo que nos caracteriza. Eu não posso considerar um ponto fraco do adversário, se esse mesmo ponto não se enquadrar na forma de jogar da minha equipa. Eu não posso elevar a estratégia, acima daquilo que é a minha identidade colectiva. 

Passando para um exemplo prático: Tenho como modelo valorizar a bola e pressionar alto, desde o primeiro minuto, e a equipa adversária é fraca na reacção a perda de bola, apresentando fragilidades na recuperação, e perde muitas bolas no meio campo ofensivo, evidenciando dificuldades na construção. Eu nunca irei pedir a minha equipa para jogar em bloco baixo, dando iniciativa ao adversário para ele sair a construir, até ao meu meio campo. Tão pouco, irei pedir para que entreguem a bola ao adversário, propositadamente, para que possamos recuperar e aproveitar a fraca reacção do adversário, apanhando-o mal posicionado. Muito menos irei pedir para que, quando recuperemos a bola, que a equipa saia na vertigem, na tentativa de os precipitar a fazer golo, depressa. Esse tipo de acção que temos na equipa, é castrador da identidade que estamos a construir e do estilo de jogo que idealizamos. Note-se que, neste caso, a aplicação da vertente estratégica, é altamente divergente do tipo de jogo em que eu acredito, aquele que eu quero que os meus jogadores acreditem, ainda mais do que eu. E é aqui que está a confusão. Não estou a valorizar a pressão alta e modelo dominante que quero impor, não estou a valorizar a bola e o controlo dos ritmos por tentar finalizar rápido após a recuperação. 
Posso e devo passar a informação dos pontos fracos e fortes do adversário aos jogadores, mas nunca, vou colocar no treino, nem pedir aos jogadores, princípios contrários ao meu modelo de jogo. 

Tudo o que fizermos deve ir de acordo aos os parâmetros defendidos no modelo.
Ter modelo é bom, mas se fizermos coisas contrárias então mais vale não ter um modelo.
É preciso haver congruência dos princípios de jogo.

Pelo que Fonseca defende, jogar igual contra qualquer equipa, para mim, já começou a ganhar!

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