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terça-feira, junho 25, 2013

A Importancia do Contexto

Hoje em dia sinto bastantes dificuldades em avaliar a qualidade de um jogador, principalmente um jogador jovem, sem o observar em diversas situações (diferentes equipas, por exemplo) e sem ter em consideração o colectivo em que está inserido.

Há uns dias liguei a televisão no Mundial de sub-20 e fiquei a ver o jogo de Portugal e pus-me a avaliar alguns dos jogadores individualmente. Admito que não conheço todos os jogadores do 11 que estava a jogar, mas ainda conheço alguns.

Obviamente que Bruma se destacou nos jogos que vi, é rápido, tem drible, criatividade, finalização, imprevisibilidade… No fundo tem todas as características individuais que precisa pra se ser um grande jogador e é claramente a referência da equipa. Seja no Sporting, no Sporting B, nos sub-19 ou sub-20 consegue sempre fazer a diferença. Ficarei muito surpreendido se não tiver uma grande carreira e não duvido que seja uma das melhores individualidades deste torneio.

Tomei atenção também ao João Mário. A qualidade de passe mantem-se, faz passes precisos, com a força indicada, no tempo certo, mas não tem conseguido gerir os ritmos do jogo, coisa que consegue fazer nos B do Sporting com mais facilidade. Como já o vi fazer noutros jogos, tenho noção que é capaz de faze-lo; mas quem nunca viu ficará com uma imagem deturpada da qualidade do jogador. Defensivamente parece um jogador pouco agressivo, permeável, quase que preguiço; coisa que não é no seu clube. Ele vale mais do que consegue demonstrar nesta equipa dos sub-21.

Como ultimo exemplo tenho o caso do Tiago Ferreira. Já vi alguns jogos dele (poucos, talvez uns 6/7 no total) no Porto B e nos escalões de formação mas nunca vi um jogo onde estivesse bem. Comete erros comprometedores, não tem boas noções de posicionamento, não parece nunca conseguir controlar o opositor... Provavelmente a minha análise é injusta e enquadrado noutro grupo, com outras dinâmicas, organizações, com outro tipo de treino seria bem mais capaz, caso contrário não estaria nem na selecção nem no Porto B mas em função do que vi não acho que tenha qualidade pra ser titular em detrimento, por exemplo, do Ilori.


A questão que me coloco é simplesmente se não se perderão inúmeros jogadores de qualidades firmadas por estarem em colectivos não adequados para si ou em colectivos em que a qualidade de trabalho é má e onde estejam reprimidos. Neste momento, se fosse olheiro teria excelentes recomendações sobre Bruma e pouco mais e acho que tal não reflete de todo o valor individual dos jogadores da nossa selecção.

14 comentários:

PP disse...

Gonçalo Matos,

Gostei do artigo! Eu no meu blog também escrevi sobre esta selecção de sub 20, ontem após o jogo frente à Coreia. Se quiseres dar uma espreitadela, podes ver aqui:

http://o-guerreiro-da-luz.blogspot.pt/2013/06/olhando-para-o-mundial-de-sub-20.html

Ali coloquei aquele que acho que deve ser o melhor onze nacional, tendo em conta as características e o momento de forma dos jogadores.

Sobre o Bruma, é de facto o jogador em melhor forma e é um craque. Fez-lhe bem os últimos meses com o professor "Juju" na equipa principal do Sporting.

Quanto ao João Mário, penso que o grande problema é que André Gomes ou Tozé ao seu lado acabam por confundir-lhe as funções que deve ter em campo. Não só a ele como também aos outros, pois são jogadores habituados a jogar na sua posição (muito embora o Tozé seja muitas vezes utilizado como falso extremo esquerdo no Porto B).

Este problema para mim é da parte da equipa técnica, pois deveria ter a sensibilidade de perceber que não é apenas colocar os jogadores mais talentosos, mas sim colocar os que fazem um onze equilibrado.

Quanto ao Tiago Ferreira, o mais positivo que encontro no rapaz é que ele é muito agressivo e intenso a jogar. Acho que dada a passividade da nossa defesa nestes jogos, isso até é uma vantagem. Quanto ao resto acho que tens razão, mas também há ali muita falta de trabalho da equipa técnica, no que respeita a posicionamento e movimentações defensivas. Não é só o Tiago que erra. Todos eles erram.

Gonçalo Matos disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Gonçalo Matos disse...

Olá PP, tudo bem? Obrigado!

Eu acho que o maior problema da selecção é o seleccionador.. A equipa é fraca em termos colectivos e quando assim é, é normal que se erre. No caso do João Mário, pra gerir o ritmo de jogo é preciso que a equipa tenha a bola, o que implica que todos devem ter em mente conservar a posse e não acho que seja isso que os jogadores (especialmente os centrais) tenham na cabeça. Mas mais uma vez a culpa também não será só deles...

Eu acredito que até podes por os melhores jogadores em campo, adaptando alguns. Mas para isso tens de perder tempo a criar rotinas colectivas pra que o talento desses jogadores seja potenciado, mesmo fora da posição e acho que é isso que não foi feito..

PP disse...

Concordo completamente Gonçalo!

Já agora, sabes qual a sensação que tenho quando vejo estes técnicos a fazerem os onzes?

É que apenas escolhem os 11 mais talentosos, sem perceber ao certo em que funções é que eles exprimem melhor o seu talento.

Depois caímos no ridículo da duplicação de funções e com a anulação de tarefas por haver duas pessoas a fazer o mesmo em campo.

Vejo isso quando vejo o João Mário e o André Gomes. Ambos estão habituados a serem eles a pensar o jogo. E, ambos estão habituados a terem alguém ao lado que pressione o adversário no primeiro momento.

Ora, o que acontece com a bola, é que tendem a pensar em demasiado em zonas proibitivas, em zonas de transição onde quanto mais rápido e simples, melhor! Sem bola, é um "vais tu ou vou eu?"!

Quando jogou o Tozé foi o mesmo problema.

Com treino penso que as coisas poderiam melhorar, tal como referiste, mas sem isso, não entendo o porquê insistir nessa solução, até porque há uma muito melhor no banco, para a posição "6" e sobretudo a "8", que já têm dinâmicas de um ano de vitórias. Escrevo do Ricardo Alves (que esteve em bom plano no primeiro jogo frente à Nigéria) e do Tiago Silva que ainda nem sequer se estreou, vai-se lá saber!

Se calhar até sei... os "meninos" do Barcelona devem ter algum preferencialismo.

Em Portugal continua-se a trabalhar com base num experimentalismo que nem sequer é do bom experimentalismo, pois é muito condicionado por vários factores externos... E, enquanto assim for, espanhóis, alemães, franceses,... e agora coreanos, vão-nos dar água pela barba!

Luis Santos disse...

Boas!

Grande texto!

Treinador é fraco, não há muito a fazer... Talento não é abundante como na Espanha, mas há que chegue para fazer uma boa equipa e acima de tudo para não sofrer 2 golos/jogo...

A nível individual, acho que se nota muito a falta de agressividade, principalmente no meio-campo. Só o Ricardo Alves é que se preocupa em recuperar posições, pressionar,... (vi pouco do Tiago Silva, não o quero incluir, para o bem e para o mal)

Já agora, já vi o Tiago Ferreira imensas vezes, principalmente quando era júnior, e estava à espera de uma evolução muito maior. Tem "raça", não é nada lento e é bom tecnicamente, mas está a falhar muito na leitura de jogo/reação... Talvez lhe falte um bom treinador (apesar de ter o Rui Gomes em boa conta).

Gonçalo Matos disse...

Luís, muito obrigado!

Pois, acho que todos concordamos que o problema aqui não é tanto dos jogadores mas sim do "projecto" onde neste momento estão inseridos.

O talento surge mais facilmente com o trabalho de qualidade e o erro com o mau trabalho. Não sei quem é este senhor que é nosso seleccionador nem o que fez, mas já vi declarações dele que acho muito estranhas e não são condizentes com trabalho de qualidade.

Coisas tipo «Portugal é uma equipa que acaba por ser penalizada por não gostar de jogar feio quando, por vezes, a prioridade é defender e tirar a bola das zonas de perigo».

E eu fico na duvida porque pra mim nós não jogamos bonito. E pra mim nós tiramos a bola das "zonas de perigo" com o chamado chutão pra frente, mesmo quando não há perigo iminente. Uma equipa a sério é aquela que consegue jogar nas "zonas de perigo" sem perder a sua identidade (mas pra isso é preciso ter uma).
E só temos de "jogar feio" porque a nossa equipa não consegue controlar o jogo nem com bola, nem sem e isso não é problema dos jogadores.

Roberto Baggio disse...

São os jogadores que fazem o modelo de jogo e é o modelo de jogo que faz o jogador. A relação é de reciprocidade... Se tiveres um modelo de jogo que evidencie as tuas melhores qualidades, vai ser fácil sobressair. Se assim não for, ficas facilmente reprimido.
Exemplo: Ninguém falava do Xavi e do Iniesta, como se fala agora, porquê? Não é porque eles mudaram o estilo de jogo deles, isso é mentira, eles já jogam assim há bastante tempo. O estilo de jogo é que fez deles o que verdadeiramente são! Se Guardiola não tivesse passado por lá, teriam sido, apenas, mais dois bons médios, nunca seriam grandes como o são agora.

Tens ali talento nos sub20 maior que em 2011, está é a ser mal aproveitado. Porque se do ponto de vista ofensivo o treinador precisa de muito tempo para por a equipa a jogar como quer, a não ser que haja, como escreveste no texto anterior, um modelo de jogo transversal a todas as equipas da selecção nacional, com o qual os jogadores estejam identificados, do ponto de vista defensivo, com o tempo que tiveram de preparação, a equipa devia ter referências bastante melhores do que mostra. Aí culpo o treinador.
Abraço

Luis Santos disse...

Gonçalo, sobre tirar a bola da zona de perigo e jogar "feio/bonito", lembro-me do Swansea do Brendan Rodgers ter sofrido um golo após uma erro no passe de um defesa que procurava sair a jogar curto e não com o chutão para a frente e alguns jornalistas perguntaram se não era um erro querer sair a jogar (/ jogar "bonito") desde a defesa e ele disse que preferia correr o risco de sofrer alguns golos por época, mantendo aquele aspeto do modelo de jogo do que alterar e perder a bola em grande parte dos chutos para a frente. Prioridades.

Baggio, 2 coisas: em relação ao Xavi, o trabalho já começou com o Rijkaard. Antes o Xavi era "6" e foi ele que o fez subir e jogar a "8". Mas sim, foi o modelo de jogo do Guardiola que o "catapultou" para o estatuto que tem hoje. Em relação à comparação com 2011, além de ter mais talento à disposição, teve o torneio de Toulon para afinar. Já estão a treinar à imenso tempo, já devia estar tudo muito bem trabalhado a nível defensivo. Concordo contigo, totalmente culpa do treinador.

Gonçalo Matos disse...

Blessing, eu concordo contigo quando dizes que os jogadores fazem com que o modelo resulte, mas a decisão de que modelo usar é do treinador. Idealmente o treinador escolhe-o em função dos jogadores mas nem sempre é assim, e sabemos isso!

Eu acho que deveria haver um modelo transversal, pelo menos para o processo ofensivo. Isso iria condicionar depois o teu processo defensivo mas pouparia imenso trabalho. E formaria jogadores eficazmente

Roberto Baggio disse...

Gonçalo, o que é preciso perceber do modelo de jogo é que ele é apenas um guia. Não é lei! Tudo que tiver que ser alterado em benefício dos jogadores será! Porque ao contrário do que se pensa isso só beneficia o modelo e o torna melhor. Como disse, os jogadores é que jogam e interpretam o modelo. Por exemplo, eu defino que os laterais devem estar interiores quando a equipa está em organização ofensiva e os extremos são os responsáveis pela largura. Mas tenho um lateral incrível que dá profundidade e largura, tipo Alba, e um extremo incrível a jogar por dentro, como por exemplo Ribery. Assim que me aperceber disso, porque eles naturalmente vão actuar contra o que tinha definido de início, troco a movimentação para eles. E digo, extremo dentro e lateral fora.
Depois só tenho de prevenir o mdef para esse problema de transição e o MC mais longe da bola para a saída de uma zona mais central do mdef.
É para isso que serve o modelo, para guiar e ser constantemente melhorado pelos jogadores. Mas claro, só é melhorado se o princípio que os jogadores "requisitarem" for congruente com ele.
Abraço

Gonçalo Matos disse...

Sim, mas em ultima análise a decisão é tua e portanto tu és o responsável. Tu vês isso mas nem todos o conseguem ver e há quem consiga ver mas que não mude. E é aí que quero chegar, não acho que este seleccionador perceba o que tem à sua disposição e não acho que ele tenha preparado o modelo desta equipa em função dos jogadores. Caso contrario vias mais gente a jogar melhor e o colectivo a apresentar-se melhor!

Nada do que falamos é um conceito estanque, há sempre dinamica. O treinador escolhe o modelo e os jogadores o põem em pratica. EM função dos jogadores há alterações, claro. Olha, tens o exemplo do Josué no Paços que jogava como um falso extremo o que permitia que a equipa tivesse mais qualidade em posse, em detrimento da largura que um extremo puro daria; mas não duvido que tenha partido do Fonseca a decisão de o jogador e por conseguinte a equipa se comportar assim

Roberto Baggio disse...

Se eu já tenho um conhecimento prévio dos jogadores, eu não posso nunca ignorar as características deles para o modelo de jogo. Ou então escolho jogadores para o meu modelo. O problema ali parece ser que não há modelo, não há um padrão de organização vincado sobre o qual todos interagem. Linhas de orientação comuns para que possamos remar todos para o mesmo lado. Acho que não é, portanto, um problema de modelo. É mais um problema da falta dele.

Gonçalo Matos disse...

Subscrevo!

Luis, o Brendan Rogers parece-me ser mesmo o melhor treinador nascido na Grã Bretanha neste momento. O Liverpool do ano passado tinha uma proposta de jogo bem interessante, só precisava de ser mais consistente e mais pressionante, na minha opinião

Luis Santos disse...

Gonçalo, também é o que mais gosto, mas a nível defensivo as equipas dele não costumam ser muito boas... Se melhorasse isso, era dos melhores do mundo, na minha opinião. Mas quero ver este ano. O ano passado a equipa foi feita de remendos... Este ano já entraram Aspas e Luis Alberto. Se sair o Suarez, deve entrar o Mkhitaryan. Se ficar assim o plantel, não está nada mal.