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quinta-feira, maio 09, 2013

O adeus à mais esperta das velhas raposas


A minha formação profissional não é em desporto, mas sim em biologia. Uma coisa que nos ensinam no curso é que para uma espécie persistir num determinado ambiente, tem de se adaptar o melhor possível ao mesmo. E tal requer evolução dos indivíduos dessa mesma espécie nesse ambiente. O ambiente constantemente se altera, portanto é necessário que as espécies se adaptem constantemente sob o risco de se extinguirem. A capacidade de evolução e a velocidade a que o fazem definem quais as espécies que sobrevivem e persistem num determinado ambiente.

Esta abordagem biológica é possível de se extrapolar para a realidade futebolística. É necessário que o treinador (espécie) se adapte constantemente ao ambiente onde se encontra, sendo que esse ambiente poderá ser o seu plantel, o seu clube, a sua divisão, ou inclusive a competição internacional que a sua equipa disputa. Por outro lado o factor tempo é bastante importante, pois com o passar dos anos, todos os outros ambientes que referi anteriormente se alteram. É assim necessário  que o treinador se adapte ao longo do tempo, visto que surgem constantemente novos estímulos e diferentes factores.

Ao treinador pede-se que constantemente faça evoluir a sua equipa e para tal é necessário que continuamente adquira novos conhecimentos, de forma a preparar no treino, a sua equipa. Nem todos os treinadores têm a capacidade de se adaptar e evoluir com o passar dos anos, talvez por incapacidade de compreensão dos novos conceitos e isso ressente-se nas suas equipas. (A titulo de exemplo comparem a qualidade de jogo das equipas portuguesas com treinadores mais velhos com as dos treinadores de nova geração)
Todos os anos surgem treinadores que fazem evoluir o jogo a novos patamares, acrescentando sempre algo de novo. Há uns anos tivemos Mourinho a revolucionar o método de treino ao levar quase à perfeição a periodização tactica, mais recentemente vimos Guardiola a criar uma equipa quase perfeita a jogar em posse e largura e pressionar alto e no último ano observámos Klopp a desenvolver uma equipa completa do ponto de vista táctico, com um posicionamento defensivo fortíssimo e fortes transições, tudo apoiado numa grande capacidade física.
Existem ainda treinadores que independentemente das inovações que surjam estão sempre entre os melhores, precisamente pela sua capacidade de aquisição e interpretação dos novos conceitos. Estes, treinadores são intemporais, independentemente do momento da sua carreira as suas equipas estiveram sempre no topo, jogando sempre futebol de qualidade.
Esta longa introdução, apenas serviu para tentar ilustrar o que penso da carreira de Sir Alex Ferguson.


Para que se perceba à quantos anos Sir Alex Ferguson treina, no ano em que começou a sua carreira como treinador em 1975, José Mourinho tinha 12 anos, Guardiola tinha 4 e o campeão mundial era a Alemanha Ocidental. A Champions League existia à apenas 20 anos e Pelé e Eusébio ainda jogavam.
A realidade era tão diferente da actual que no reino Unido os clubes serviam guisados com batata cozida aos seus atletas antes dos jogos. Não há grandes paralelismos com a realidade de hoje em dia, tirando a bola e os 22 jogadores.

Olhando para a História, é interessante perceber que Ferguson progrediu todos os clubes por onde passou.
Antes de ir para o Manchester United, treinou vários clubes escoceses e ainda a selecção do seu país. No St MIrren subiu o clube de divisão; no Aberdeen foi campeão nacional em 1980 acabando com a hegemonia de 15 anos de Celtic e Rangers, ganhou duas taças escocesas e foi campeão europeu na época 82/83.

Existem histórias interessantes desse tempo, que contam como Ferguson era disciplinador e intimidante. A minha preferida foi a que ouvi há uns tempos, sobre uma final de uma das taças escocesas em que o Aberdeen saiu vencedor. Contam que no final, no balneário, Ferguson estava irritadíssimo com a falta de qualidade da sua equipa e apesar da vitória criticou abertamente os seus jogadores. Estas declarações demonstram bem a mentalidade vencedora e competidora de Ferguson, que há 30 anos atrás não só queria ganhar, queria ganhar a jogar bem, independentemente do clube que treinava e do adversário que defrontava.

O seu período no Manchester é bastante conhecido com inúmeras vitórias a nível interno e externo. Exemplificando, antes da sua chegada o United tinha sido campeão nacional por 7 ocasiões, hoje em dia possui 20 campeonatos.
Além da sua capacidade de ganhar títulos, conseguiu formar inúmeros jogadores.
 A equipa campeã europeia de 1999 tinha no plantel vários jogadores oriundos da formação, tais como Beckham, Giggs, Scholes, Butt, os irmãos Neville, Greening, Wes Brown ou Higginbottam. No plantel actual existem igualmente jogadores da cantera, como Welbeck, Fábio, Smallings, Evans, Fletcher ou Cleverley. Ano após ano saíram jogadores da formação não só para a equipa principal como também para vários clubes da primeira divisão inglesa.

Também inúmeros foram os jogadores que foram potenciados sob o seu comando. Exemplos claros são Cantona, Roy Keane, Rooney e Cristiano Ronaldo. Do que presenciei, apenas vi um jogador em sub-rendimento em Manchester, que foi Anderson.
Igualmente, treinadores actuais foram seus jogadores (exemplos são Steve Bruce, Mark Hughes, Paul Ince) e nenhum conseguiu alcançar o estatuto do seu mestre, demonstrando de novo a sua capacidade de adaptação.

O que mais admiro em Ferguson é a sua capacidade de planeamento e estruturação, razão que o levou ao sucesso em Manchester e que permitirá que o clube continue a vencer nos próximos anos. Ferguson percebeu antes dos demais, a importância de criar uma identidade num clube e de apostar na formação pessoal e dos seus jogadores como chave para o sucesso. Sempre se manteve atento ao que de novo fazia e soube reagir aos novos estímulos.~

O Manchester United é há vários anos a melhor equipa inglesa, a que melhor interpreta os princípios de jogo, a melhor sucedida nas competições continentais e junta a isso o facto de ser o clube mais rico do Mundo. Independentemente da qualidade do seu plantel é uma equipa altamente competitiva e raramente perde um título por ser surpreendido.

Tendo nascido em 1989, nunca vi o Manchester com outro treinador e não consigo imaginar o que mudará sem Ferguson no banco. No papel de diretor, acredito que  continuará a ter papel importante em todas as decisões do clube, espero que como director do futebol de formação. A mudança não será brusca mas far-se-à certamente sentir, independentemente da qualidade do seu sucessor. Nunca será fácil suceder a um ícone mundial.

Admito que espero que ele um dia volte, quando o clube de novo precisar dele.
Até sempre!




8 comentários:

Roberto Baggio disse...

Monstro é a melhor palavra que define este senhor :)
Referência para qualquer pessoa que gosta de futebol no mundo inteiro.
Eu estou com Mourinho quando diz que Sir Alex é o chefe dos treinadores!

Gonçalo Matos disse...

O chefe, o pai, o primeiro, o que tu queiras dizer! Para mim, é neste momento o maior treinador da história do futebol

Anónimo disse...

Parabéns pelo texto!

O que mais me fascina no Sir Alex é que em tantos anos da poda foi capaz de se actualizar e sempre ao mais alto nível. Tal como explicas ele é treinador desde que se jogava outro futebol, noutra realidade, e conseguir acompanhar a evolução sempre no top é preciso ser especial e acima de tudo humilde para reconhecer aprender constantemente.

Um abraço
Sérgio

Gonçalo Matos disse...

Muito Obrigado!

É de facto preciso ter humildade e uma grande vontade de vencer para se conseguir manter no topo todos estes anos. Gostava de saber como, onde e com quem foi aprendendo!

KAKA disse...

Gonçalo Matos

Ótimo texto, muito bom mesmo, tem certeza q é formado em biologia?! rsrsrs

Sir Alex é realmente "monstruoso"!

Tambem concordo q:

"Do que presenciei, apenas vi um jogador em sub-rendimento em Manchester, que foi Anderson."

O Anderson vi jogar ainda no Grêmio com 16-17 anos era um assombro, não havia dúvidas q seria um dos melhores do mundo em pouco tempo. Na época ele jogava como Meia-esquerda, hoje ele joga mais atrás, de volante, e não é nem sombra do q já foi um dia...

Abraço
;)

Gonçalo Matos disse...

Obrigado Kaka!

Futebol e Biologia são duas áreas que muito gosto e tenho visto que há pensamentos das duas áreas que se unem, acho muito interessante!

Quanto ao Anderson, concordo que poderia ter sido excelente! era rapido, forte fisicamente, drible com ambos os pés, tinha tudo pra ser excelente!

André Ferreira disse...

Sim, concordo que um dos segredos dele foi estar atento ao que de novo se faz por ai, e esteve atento (e aqui é que vem a parte especial) mesmo quando esta a ter sucesso com outros métodos. Acho que isso é que o tornou especial, não teve medo de mudar, mesmo quando as coisas estavam bem! Só para se perceber até onde ia a atenção dele ao que se faz de novo, ainda há pouco tempo ele disse que se andava a fazer coisas muito interessantes na faculdade do porto!

Pedro Filipe Godinho disse...

É o grande Treinador da História do Futebol (assim, com maiúsculas).

Hoje em dia, rio-me quando se dizia, há uns anos valentes, que Carlos Queiróz era o segredo do sucesso de Ferguson. Que era ele quem fazia tudo nos treinos e que escolhia a equipa e que Ferguson era só a "cara" do projecto.

Velhos tempos do futebol actual :D