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sábado, maio 25, 2013

Cristiano Ronaldo, será que ganhou assim tanto?

Como é que é possível ganhar, tendo perdido o melhor que tinha?

Entrevista retirada do blogue de Nuno Amieiro aqui, publicada no dia 30 de Março de 2009

À conversa com Vitor Frade 
Mexer ou não mexer, eis a questão?
 Nuno Amieiro (NA): Professor, até que ponto faz sentido pensar-se em alterar a «configuração física» a um jogador para que este venha a ser algo mais do que aquilo que é? Isto é, no sentido de, por exemplo, o «engrossar» para ser mais resistente ao choque ou para ir ao encontro de um qualquer estereótipo corporal de defesa, médio ou avançado?
Vítor Frade (VF): Antes de mais, é necessário reflectir sobre a designação que está a utilizar, a expressão «configuração física». Por exemplo, diz-se muitas vezes o seguinte: “Aquele jogador não vai jogar porque tem um problema físico”. Será que quem diz isto está a querer dizer que lhe falta resistência ou qualquer outra coisa relacionada com o físico? Não. Por isso, para mim, o que o jogador tem é um problema clínico. É preciso algum cuidado com a terminologia para que o entendimento das coisas seja um determinado. Em relação à sua pergunta, parece-me mais ajustado falar em morfotipo do jogador e, no meu entender, pensar-se em o alterar é uma asneira de todo o tamanho. As exigências que regularmente o indivíduo vai enfrentando vão tornando-o mais resistente e mais capaz e não devemos querer ir mais longe do que isso, pois na tentativa de ganhar determinadas coisas, iremos perder uma série de outras coisas.
Não me custa nada reconhecer que, para certas posições e funções, o morfotipo e a estatura são relevantes, em termos de média. Mas, por exemplo, no caso do ponta-de-lança até menos do que no caso do defesa central. E mesmo aí todos nós conhecemos defesas centrais de top que são relativamente baixos, onde aquilo que os identifica como característico tem normalmente pouco a ver com o lado externo do morfotipo, aquilo que designou por «configuração física», e muito mais com a articulação e os timings de utilização de uma série de outras coisas. Veja, por exemplo, o caso do Liedson... Ele é «felino» e para ser «felino» e eficaz, tem de ser inteligente, tem de ser capaz de decifrar, de se antecipar... Mas vou-lhe dar outro exemplo. O Pepe tem uma entrevista recente, num jornal espanhol, onde diz que presentemente também está a fazer musculação para o trem superior, para o tronco, porque, refere-o ele, joga-se muito disputadamente, os pontas-de-lança são grandalhões, o tipo de jogo proporciona muitas disputas e, nesse sentido, ele sente a necessidade de ser espadaúdo para poder enfrentar essas circunstâncias. Mas também diz que se sente à nora quando lhe aparece um ponta-de-lança pequenino...
 NA: O professor está a querer dizer que ele pode vir a perder algo do Pepe que conhecíamos 
VF: Ele já está a dizer que está a perder!!!... Porque, quando ele não era espadaúdo ou não ia para o ginásio com esse fim, ele foi capaz de ser vendido por 30 milhões de euros e penso nunca o ter ouvido afirmar que os jogadores pequeninos lhe davam problemas... Não sei... Mas, ao que parece, ele agora está a senti-las. Porque, e isto é que é importante que se perceba, a acentuação de qualquer uma que seja considerada como variável tem repercussões no peso que as outras tinham no padrão de relação que existia. E, pelo menos ao nível da formação, esta lógica de pensamento é um absurdo, embora eu também esteja em desacordo com ela no que se refere ao rendimento superior... Era admitir que seria vantajoso «engrossar» o Liedson... O Liedson nunca mais seria o Liedson! E, provavelmente, aquilo que o fez ser Liedson foi o facto de ele não ter esse arcaboiço.
Eu conheci o Anderson e, para mim, ele era potencialmente um dos melhores jogadores do mundo como médio interior. Eu estava convencido de que, a continuar na mesma posição e nas mesmas funções, ele seria do melhor. Precisamente na posição onde hoje é mais difícil de encontrar jogadores daquele tipo. Foi para o Manchester e passou a jogar mais atrás... Disseram logo que tinha de ganhar não sei o quê... E dizem agora que ganhou isto e aquilo... Ganhou o quê? A maioria das vezes eu nem o vejo a jogar. E o que perdeu sei eu muito bem. Dizem que ganhou capacidade defensiva, que está outro jogador e mais não sei o quê. Pois está! Está outro, sem aquilo que tinha e que, do meu ponto de vista, é o mais difícil de ter: capacidade de desequilibrar no último terço, capacidade de deixar pronto no último terço, etc, etc... Ora, tudo isto tem origem em dois pontos de conhecimento: o conhecimento de jogo que se tem, ou melhor, que não se tem; e o conhecimento retrógrado, miúpe e mecânico que se tem do que é o Indivíduo. É necessário saber um pouco das duas coisas... 
NA: Deixe-me pegar agora no exemplo do Cristiano Ronaldo... A generalidade das pessoas está claramente convencida de que o que ele é hoje enquanto jogador se deve em grande parte ao trabalho de ginásio que desenvolveu e provavelmente continua a desenvolver... 
VF: Isso rebate-se com facilidade. O Cristiano tem um morfotipo e joga numa posição que pode permitir que o lado atlético seja um acrescento. Mas eu penso que a juventude dele e o facto de estar a jogar em Inglaterra ainda não o fez dar-se conta do desperdício que é o não uso tão regular da capacidade de drible, de simulação e de engano que ele tinha. E o jogo assente neste padrão atlético em que ele se está a viciar e do qual beneficiam os abdominais e o porte que ele tem, tirou-lhe algo que ele também tinha potencialmente, que era aquele poder de «ginga», que é mais o registo, por exemplo, do Messi. E eu pergunto, alguém no seu perfeito juízo é capaz de dizer que o Cristiano Ronaldo é melhor do que o Messi? Na melhor das hipóteses dirão que um é tão bom quanto o outro. E o Messi é exactamente o oposto em termos de morfotipo: é pequeno, enfezado,... E é doente, pois tem problemas metabólicos.
Acho que o que é fundamental é que o jogador tenha a capacidade de resistir e de ter força... Mas é importante que se perceba o que eu quero dizer com isto, pois não tem nada a ver com o entendimento comum... Repare na conversa que há pouco estávamos a ter sobre o Fábio Coentrão. O Coentrão, sendo um indivíduo débil, frágil, numa disputa de bola contra dois jogadores matulões do FC Porto, o Cissokho e o Rolando, conseguiu, com uma «ginga», sentar os dois e ir embora com a bola... Isto, para mim, é que é ter força. Ter capacidade de arrancar, travar, voltar a arrancar mas pelo lado contrário... 
NA: O Fábio Coentrão é claramente o tipo de jogador que, normalmente, sente na pele este modo mutilador de pensar... «Ele é bom jogador, mas falta-lhe...»... 
VF: Porque a lógica que está implantada é a lógica da burrice. A cada passo vemos e ouvimos apregoar uma série de slogans que vão ao encontro desse tipo de raciocínio. Até na escolha dos miúdos ao nível da formação se ouve, sistematicamente, coisas como «Eh pá, é habilidoso, mas é pequenino». É um absurdo. Por exemplo, o Liedson, não sendo um fora-de-série, ao nosso nível é um jogador fantástico e é pequenino, como o era o Romário e uma série de outros bons jogadores.
Mas o ridículo desta questão é fácil de constatar. Se nós formos perguntar aos indivíduos que fazem a apologia do físico, da altura, do corpo «engrossado» qual é o melhor jogador do Benfica, quase todos eles respondem que é o Aimar. Se perguntarmos em relação ao Sporting, quase todos eles dizem que é o Liedson e o João Moutinho. Se perguntarmos em relação ao FC Porto, quase todos eles referem o Lucho, que por acaso é alto, mas não é de cabeça que ele sobressai e é adelgaçado. Se perguntarmos em relação ao Barcelona, quase todos eles apontam o Messi, o Xavi e o Iniesta... Da mesma maneira que quando perguntaram a um ex-director técnico nacional do atletismo o que ele pensava do Usain Bolt, o campeão olímplico dos 100 metros, ele respondeu que era «um diamante em bruto». Um indivíduo que acaba de bater todos os recordes é «em bruto»? Está implícito na resposta dele que, quando o Usain Bolt fizer musculação e uma série de outras coisas, vai voar como os crocodilos... Mas, espere lá, os crocodilos não precisam de voar para serem crocodilos!... O que se deveria fazer era parar e pensar que a seguir ao Carl Lewis, todo o morfotipo que surgiu era de indivíduos estilo Caterpillar e que, agora, aparece este atleta com um morfotipo longilíneo a bater todos os recordes. Mas é o próprio Usain Bolt quem diz que não faz musculação, que treina na relva e que as únicas cargas que utiliza é ao fazer competições de 60 metros com um colega a puxar um pneu. E diz que dança muito por ser da terra do reggae!
Quem souber um bocadinho sobre aprendizagem motora, sobre coordenação motora, sobre timing de manifestação muscular e de coordenação muscular, etc, acaba por se afastar dessa forma de pensar que é mutiladora. Mas até aqui na faculdade há professores que dizem que o músculo é cego. Cegos são eles, porque o músculo é, manifestamente, muito mais, um orgão sensitivo do que um órgão gerador de potência. E, se calhar, ao mesmo tempo que dizem que o músculo é cego, defendem que é importante a proprioceptividade. Ou seja, não sabem o que estão a dizer. Porque a proprioceptividade é precisamente o que faz do músculo fundamentalmente um órgão sensitivo. Portanto, uma série de mecanoreceptores que se alteram para captarem, digamos assim, a evolução do corpo no tempo e no espaço. Ora, o futebol de qualidade, para qualquer posição, apresenta uma diversidade de agilidade e mobilidade que... Eu costumo dizer que a ignorância é atrevida p’ra caraças... 
NA: Um dos argumentos de que eu me costumo servir para tentar evidenciar o quanto pode ser prejudicial querer «transformar» um jogador tem a ver com algo para o qual o professor alerta frequentemente... Eu, enquanto elemento da minha espécie ainda não estou totalmente adaptado ao bipedismo e, portanto, muito menos preparado para jogar futebol. Ou seja, eu tenho uma história, para o caso «motora», que, em parte, partilho com a minha espécie e que, em parte, é pessoal, fruto das minhas vivências. Se pensar em ir «engrossar» ou tentar ganhar algo que, em termos corporais, não tenho, vou estar a interferir com essa história, que é património meu. Com isso, provavelmente, vou estar a hipotecar muito desse «património coordenativo» que o envolvimento a que estive sujeito durante anos me levou a adquirir «contra-natura» hominídea! 
VF: Eu já não quis ir por aí, porque esse caminho levar-nos-ia a 3 ou 4 horas de conversa... Mas, repare, é também preciso perceber que à volta de tudo isto há um jogo de interesses muito grande. Por exemplo, qual é uma das indústrias mais ricas do mundo? É a indústria do armamento. E alguém fabrica o que quer que seja para não vender? Com certeza que se têm de criar condições para que as coisas se usem... E depois, no caso do futebol, a publicidade também assume um papel muito importante, pois vem dizer que uma série de coisas são indispensáveis, que é necessário fazer isto e aquilo para que se marque dois golos com um pontapé só, e servem-se de alguns exemplos que facilmente caem no absolutismo pela falta de conhecimento que as pessoas têm acerca do jogo e acerca do Indivíduo. 
NA: Para acabar, uma pergunta muito directa: porque é que o facto de eu ir fazer musculação vai alterar aquela que é a minha história de relação com o corpo? 
VF: De um modo muito simples, porque altera a relação do corpo com o corpo, ou seja,... Há dois tipos de timing. O timing coordenativo dos músculos entre si, que é a co-contractividade, portanto, vão existir cadeias que passam a degladiar-se, que se passam a estorvar umas às outras. Porque é uma coordenação que se coloca contrária à fluidez que sugere e solicita a espontaneidade do jogo de futebol. Para além disso, há outro tipo de timing, que tem a ver com o ajustamento muscular à alteração sistemática regular que o envolvimento coloca. Ao fazer musculação vai estar a bulir com isso, vai estar a enganar o sistema nervoso. Portanto, vai obstruir o leque de possibilidades de manifestação que o corpo tinha a jogar futebol. E se o fizer quando em desenvolvimento vai inclusivamente bloquear o crescimento, por exemplo, dos ossos e de outras estruturas. Vai hipertrofiar uma zona que é muscular quando nós sabemos que os tendões não se desenvolvem da mesma forma... Porque não é natural! É como aqueles indivíduos que tinham uns carrinhos pequeninos e lhes rebaixavam a colaça, colocavam umas jantes largas, uma suspensão mais dura, etc, para se armarem em corredores... Só que depois partiam os carros por outro lado...

Agradecimento ao http://futeboleisto.blogspot.pt, pela recordação desta excelente entrevista. 

22 comentários:

Saber Sobre o Saber Treinar disse...

Esta é uma entrevista, de facto, extraordinária.
Portugal tem, um dos grandes génios de sempre, dedicado à metodologia de treino e poucos se apercebem ou o reconhecem. Prova disso, é que nunca vi uma reportagem televisiva sobre o professor Vitor Frade.
Mais sobre este tema em: http://www.sabersobreosabertreinar.com/2012/11/utilizacao-do-ginasio-como-meio.html
Parabéns por mais este espaço

Roberto Baggio disse...

Obrigado pela tua visita,
Já tinha conhecimento do teu espaço também, só me tinha esquecido de assinalar aqui no blogue, mas já está!

Sim, o professor Vítor Frade é uma grande referência para mim e para o Ronaldinho, tendo sido ele a maior influência em todos os saberes que adquirimos.

Grande abraço

Anónimo disse...

Bom dia,

Queria antes de mais felicitar-vos pelos excelentes textos deste blog.

Quanto a este artigo, não será parte do problema alguma incompreensão das equipas técnicas sobre o que é treino de força.

A mim parece-me uma verdade difícil de contestar que um atleta mais forte é menos propenso a lesões e sendo o resto tudo igual é preferível um atleta mais forte.

Não será parte do problema fazerem-se programas de "ganhar músculo" baseados em métodos do bodybuilding com máquinas e muitos exercicios de isolamento que pode afetar a capacidade do atleta mover o seu corpo da melhor forma.




Gonçalo Matos disse...

Anónimo, a questão aqui é a definição de força... O aumento da massa muscular aumenta igualmente a probabilidade da lesão!

Pegue por exemplo no caso do Ronaldo. O fortalecimento muscular poderá ter aumentado a capacidade de explosão e aumentou certamente a capacidade de choque. Contudo, retirou-lhe agilidade, que é uma das características físicas mais difíceis de adquirir. Em termos físicos houve um ganho? Eu não tenho grandes certezas!

O Gourcuff era um jogador rapidíssimo e ágil com 19 anos mas tinha pouca força. Investiram no seu fortalecimento muscular o que aumentou bastante o seu risco de lesão. Se tivermos em consideração que tudo isto foi feito no centro de rendimento do Milan, recorrendo a alta tecnologia, percebemos que não foi por falta de condições que as lesões surgiram.

Olhando para Ronaldo, o fenómeno, o fortalecimento muscular trouxe-lhe lesões.

Na minha opinião, desde que o jogador cumpra as suas funções em campo, do ponto de vista técnico e táctico, o poderio físico (força)não tem papel preponderante. O aumento do poderio fisico, na minha opinião deveria ser estimulado apenas durante o exercício do treino. Aí sim, o jogador recebe os estímulos semelhantes aos que encontrará no jogo e se o seu corpo se aptar ao treino, também estará pronto aos estimulos do jogo

Gonçalo Matos disse...

Anónimo, por meu lapso esqueci-me de agradecer os seus elogios! Muito obrigado!

Partilho da sua opinião, os textos do Baggio e do Ronaldinho têm sido excelentes. Admiro bastante a capacidade de compreensão do jogo que ambos possuem!

Saber Sobre o Saber Treinar disse...

Obrigado pela divulgação.
Vocês também já foram citados, mais do que uma vez, no meu trabalho.
1 abraço

Roberto Baggio disse...

Boas Anónimo,

Não percebi se colocaste questões, ou se queres que se comente apenas as tuas frases, queres explicar?

Abraço

Anónimo disse...

Boas,

A minha pergunta é se acham que a perca de agilidade e propensão a lesões resulta de treinos incorrectos de força / aumento de massa muscular e não de que força é detrimental para os jogadores de um modo geral.

Por exemplo, muitos atletas e treinadores treinam incorrectamente a musculatura das pernas o que resulta em desiquilibrios, tipicamente quadriceps demasiado fortes para os hamstrings (desculpem não sei os termos portugueses), tipicamente por exemplo de treinos de agachamentos com má profundidade (um mito sobre agachamentos serem maus para os joelhos).

Gonçalo, por um lado percebo o ponto de vista de usar a prática do desporto em si para desenvolver os atributos físicos necessários para o desporto em questão. Por outro lado, se concluirmos que força é importante, o estimulo do jogo não chega para desenvolver força pois não tens contração suficiente dos musculos para gerar esse tipo de adaptação.

Não digo que a força máxima seja o fator mais importante no futebol, até é dos desportos onde é menos importante, mas penso que sendo tudo o resto igual...

Possivelmente o que seria o ideal para um jogador de futebol seria uma boa relação entre força e peso (strength to weight ratio) em vez só força máxima.





Roberto Baggio disse...

Anónimo,
A questão do aumento de massa muscular tem haver com o tipo de morfologia do indivíduo e com o tipo de acções musculares que a sua actividade solicita.
O maior problema é o hábito, ou seja, um tipo que durante a vida inteira teve um determinado tipo de desenvolvimento com um determinado tipo de estímulos, habituou o seu corpo a esse padrão, com determinado tipo de interacção. Por exemplo no caso concreto de Bolt, está numa área onde a coordenação muscular e agilidade são supra importantes e ele durante toda a sua vida nunca treinou especialmente grupos musculares isolados da sua actividade. Quando ele vai realizar o treino de força, por força, vai aqueles padrões de interacção muscular começam a ficar baralhados. O corpo vai ficar diferente, porque vais fazer hipertrofia muscular, sem que as outras estruturas da zona que estás a tentar alterar estejam preparadas para isso, sem que elas sustentem esse desenvolvimento. Por exemplo repara na data desta entrevista e quando aconteceu a primeira e as seguintes lesões de Bolt... Exactamente um ano depois de ele ter começado a alertar o padrão de treino que ele tinha.... Isso não é garantidamente coincidência...
Repara em Robinho, repara em Pato... Tentar alterar a inter e intra relação muscular de uma vida é completamente errado. Da mesmo maior propensão a lesões.

Roberto Baggio disse...

Continuando o raciocínio... Os jogadores /atletas, ganham massa muscular e ganham força. Sim ganham mesmo. O problema é que o tipo de força que ganham não é a necessária para a actividade que vão realizar. E depois nem parece que o indivíduo ganhou força porque ela não é solicitada logo não se manifesta. E depois quando estivermos a solicitar a força que precisamos? O corpo já não é o mesmo... Há que ter muito cuidado com este tipo de alteração.

Anónimo eu garanto que consigo criar o estímulo certo para o ganho de força com o padrão de contracção muscular adequado, com o os tempos de trabalho e repouso semelhantes ao futebol e ainda com o princípio de sobre carga inserido, isto dentro de um exercício Específico, com variantes tácticas incluídas.
Porque afinal de contas que tipo de força é que o jogador precisa?
Força para arrancar, travar, saltar, mudar de direcção, levantar-se, passar, rematar, conduzir a bola e aguentar o choque... E dentro do treino, consigo esse tipo de trabalho e desenvolvimento desse tipo de força, como dizes e bem, com o padrão de contracção muscular parecido com o do jogo. Porque é desse que tu precisas para evitar lesões, não doutros. Porque é esse que vai ser solicitado...

Roberto Baggio disse...

Quanto ao que outros treinadores e atletas fazem, não estou realmente dentro disso para te dar uma resposta. Mas depende do objectivo e da actividade a desenvolver de seguida...
Se o tipo de força, tensão, contracção é o certo para a actividade seguinte, então tudo bem... Mas se não o for o risco de lesão é demasiado grande.

Anónimo disse...

Bom dia,

Penso que talvez a chave do problema é o ganhar força no ginásio que depois não é expressável em campo. Para mim, na treino de força não é apenas questão de alterar a morfologia do atleta e % massa muscular, tem de ser força "utilizável" em qualquer atividade física. Ou seja, podemos discordar neste ponto mas para mim, se atleta perde agilidade ou outras qualidades que o ajudam no sua actividade desportiva ou ficou mais propenso a lesões então por definição o treino de força foi mal feito.

Uma das coisas que eu acredito, que pode ser controversa, é que o treino de força feito a atletas de alto nível não é necessáriamente o melhor. Acredito que em muitos casos os atletas são de topo apesar do seu treino e não o contrário.


Presumo que estejas a falar de treinos pliométricos ou de sprints inseridos talvez em exercicios que ensinem alguma tática. Penso que isso é uma abordagem que se insere num correto treino de força. Onde discordo é que apenas isso seja melhor do que treino de jogo especifico + trabalho de força. Desde que o trabalho de força seja corretamente acompanhado. A questão para mim é que no treino de força podes dar estimulos especificos para ganhar força sem que necessariamente seja no contexto de uma acção feita em campo. O pomo de discordia aqui é que eu acho que é possível ganhar força no contexto de um estimulo que não aparece em campo e que essa força ganha é depois vantajosa em campo.

Um exemplo, sprints numa colina ou plano inclinado a subir com um weight vest (ou numa duna na praia). Não é algo passível de acontecer em campo mas é uma maneira de desenvolver força muscular nas pernas que é aplicável em campo (pois neste caso, nem interferimos com o padrão de movimento do atleta, simplesmente tornamos o movimento mais dificil para criar uma adaptação).

Só para sintetizar o meu ponto de vista, acredito (graças a este blog e ao lateral esquerdo) que nunca o treino de força deve ser feito em detrimento do treino de tática. Acho é que o treino de força pode ter componentes fora do campo, precisamente para ser um treino de força mais eficiente e não tirar tempo ao treino tático feito no campo. E claro, o treino de força deve ter como objetivo melhorar o desempenho do atleta no nosso desporto se isso não está a acontecer o treino está errado.




Roberto Baggio disse...

Anónimo olá.
Repara no seguinte: Especificidade... E quanto falamos nisto, falamos em força específica para o jogo e mais do que isso, força específica para o modelo de jogo.
Então qual é a melhor forma de adquirir exactamente o que precisas para jogar, da forma que queres que a tua equipa jogue? Todas capacidades físicas, técnicas e mentais vão ser adquiridas ali, através da especificidade.

Vamos lá ver um exemplo concreto: Barcelona de Guardiola
Achas que o Messi deva treinar o que o Ronaldo treina em termos físicos? Velocidade resistente por exemplo?
Não, certo? Porque no modelo Barcelona, ele tem outro tipo de solicitação e outro tipo de exigência. Então, como é que treinas com o maior grau de aproveitamento e aproximação aquilo que vais precisar no jogo? Treinando o teu modelo nas diferentes dimensões, física, e técnicas em convergência com a táctica.

Não digo que não se possa ganhar força de outras formas, sei que é possível. Mas acredito que há formas menos "violentas" para o jogador de o fazer, sem sair do campo...
Mas também sei que há treinadores que trabalharam de forma diferente e tiveram muito sucesso na gestão física e no modelo de jogo.

Anónimo disse...

Penso que é uma questão de tradeoffs, porque o tempo de treino e no futebol como jogo coletivo e em particular no modelo do Barcelona um jogador com as caracteristicas físicas do CR não seria tão valorizado ou necessário. Mas aí, acho que já é outra questão, pois estamos mais a questionar que caracteristicas físicas devem ter os meus jogadores em função do meu modelo de jogo.

No fundo as minhas reticencias com o artigo são essencialmente com a asserção que o treino de força é necessáriamente prejudicial para um jogador. Penso que apenas o é quando é feito incorrectamente (em que o jogador ganha propensão a lesões, perde agilidade, etc.) ou quando é feito em detrimento do trabalho tático. Idealmente os nossos jogadores estariam na melhor forma física (força, capacidade de explosão, resistencia) a priori, e aí fariamos o nosso treino com um modelo à Barcelona. Concedo que esta situação se calhar nunca acontece e temos de fazer tradeoffs (e no futebol, como desporto coletivo com muita gente em campo, a organização ganha ao físico).

Uma pergunta, existe no futebol, nas equipas que conheces, o modelo de treino on-season e off-season ? Poderiamos focar mais no aspecto fisico off-season e completamente na especificade do jogo on-season ou isso não é fazível ?

Mais uma vez, queria também dizer que este blog é dos poucos que vale a pena ler sobre futebol :).






Roberto Baggio disse...

Acho que me expliquei mal...
O que te queria mostrar era que cada modelo exige uma adaptação física diferente, um padrão de esforço diferente, porque cada um deles tem tarefas diferentes e portanto o tipo de força que quero ganhar para o meu modelo é diferente do tipo de força que tenho de ganhar para jogar no modelo do Barcelona por exemplo. E o que te questionei foi: Tendo em conta às disparidades das tarefas de cada modelo, como é que garantes que estás a trabalhar o tipo de força que vai ser solicitado no teu modelo de jogo? E como é que tirando o jogo e modelo da equação podes treinar com exactidão esse tipo de força?

O treino de força não é de todo prejudicial, desde que contextualizado. É bom sim, treinar força específica para o futebol, mas a cereja no topo disso tudo é trabalhares às adaptações físicas todas em função do teu modelo de jogo.

E mais, tudo isso vai depender da realidade específica de cada um. Na realidade profissional os jogadores levam trabalho de férias e o período sem competição que enfrentam é curto. Dessa forma, posso logo começar a trabalhar em especificidade desde o primeiro dia, pois o estado físico dos jogadores permite que eles tenham força e resistência e velocidade para aguentar intensidades máximas relativas com o um aumento gradual do nível de continuidade (quanto mais continuo, menos pausas).
Nesse modelo que falas admito até que a primeira semana seja diferente e não tenha como objectivo principal a especificidade do modelo, mas sim a do jogo trabalhando capacidades físicas gerais.

A nível mais amador, os jogadores enfrentam um período de paragem muito grande, e são poucos os que fazem algo durante as férias. E aí perco sempre entre uma a uma semana e meia (das 6 semanas de preparação) para colocar os jogadores no estado físico ideal. Mas mesmo nessa semana há especificidade para o futebol e no início da segunda já há modelo de jogo a trabalhar e adaptação física específica ao modelo.

Anónimo disse...

"Tendo em conta às disparidades das tarefas de cada modelo, como é que garantes que estás a trabalhar o tipo de força que vai ser solicitado no teu modelo de jogo? E como é que tirando o jogo e modelo da equação podes treinar com exactidão esse tipo de força?"

Penso que existe alguma universalidade nas caracteristicas físicas que um bom treino de força desenvolve, ou seja, que ter uma base atlética sólida é uma boa fundação para depois adaptar os atletas ao modelo de jogo.

Um jogador com boa resistencia, força explosiva no arranque e no salto, capacidade de choque e com uma musculatura equilibrada por forma a diminuir a propensão a lesões, penso que é bom seja qual for o modelo não ? Desde que não se perca as outras caracteristicas mais importantes, certo ?


A minha visão, possivelmente errada, que um jogador com uma base atlética sólida está melhor capacitado para depois se adaptar às necessidades do teu modelo de jogo, é isto que quero chegar. E que o caminho para chegar e manter esta base pode ou não passar por um treino especifico de força, que pode implicar exercícios mais especializados.

No fundo tenho este modelo que um atleta deve ter uma base sólida de força e resistência trabalhada corretamente e que tendo esta base o foco deve ser como expressar esta capacidade física nas acções especificas do desporto do atleta.

Voltando ao artigo original, o problema parece-me que tal como muitos treinadores têm ideias erradas sobre o jogo coletivo existem muitos (e até diria em alto nível) que têm uma ideia errada sobre como desenvolver uma boa base atlética e de certa forma depois "estragam" o atleta (culpo facto de muita gente achar que bodybuilding com máquinas de isolamento == treino de força).

Gonçalo Matos disse...

Concordo que um atleta com uma boa capacidade física terá mais propensão que um fora de ritmo.

Eu acredito que seja possível trabalhar correctamente um jogador de maneira a reduzir os trade-offs de que falas, mas não sei como o faria.. Na NBA vês atletas que aumentam a massa muscular bastante e não perdem muito a sintonia fina..

Por outro lado, acho que dependerá sempre do que consideras a base atlética sólida. Acho que por exemplo, o João Moutinho tem essa base. Por um lado não é um portento de força ou explosão mas por outro também aumentou a sua força desde que saiu do Sporting, sem reduzir qualidade técnica. Certamente haverão por aí mais exemplos, mas não acredito que haja muitos jogadores a ter grandes mudanças na musculatura e a manter quase todas as características antigas.

Sem perceeber muito de treino físico, diria que para fazeres esse tal melhoramento físico, terias de fazer planos individuais que tivessem em conta as caracteristicas da musculatura dos jogadores, o que exigiria teres um conhecimento aprofundado do tecido muscular de cada um..

Acho que com o aumento da área/peso do músculo é natural que percas sensibilidade... O tecido neuronal não se divide e comparativamente terás menos neurónios por área após "esse enchimento", reduzindo a sensibilidade.

Depois há a questão se será necessário o jogador perder esse tempo a treinar algo que poderá ser acessório, até a nível individual.

Luis Santos disse...

Boas!

Não tinha visto este post... Obrigado pelo...agradecimento.

Está uma discussão interessante. Concordo com algumas coisas que o "anónimo" diz (no fundo, trabalhar as bases limitando a perda de outras características). Mas sobre a parte do treino, prefiro deixar para quem percebe mais disto que eu.

Gonçalo Matos, o Messi, por exemplo, está muito maior que há 2/3 anos e mantém as características antigas. Não sei se tem só a ver com treino ou se terá a ver com a condição clínica dele. Mas também não estou a ver muitos mais jogadores.
E, sim, a NBA é um exemplo no que diz respeito à inclusão do trabalho físico. Mas a especificidade do jogo também pode ser propícia a isso. O trabalho de pernas, por exemplo. No caso do basquetebol, as pernas servem essencialmente para corrida e salto. No futebol, além desses precisas para recepção/controlo da bola (não que seja feito com as pernas, mas afecta o movimento). Mas isto já foge um bocado ao meu entendimento...

Abraço!

Roberto Baggio disse...

Anónimo,

"Um jogador com boa resistencia, força explosiva no arranque e no salto, capacidade de choque e com uma musculatura equilibrada por forma a diminuir a propensão a lesões, penso que é bom seja qual for o modelo não ? Desde que não se perca as outras caracteristicas mais importantes, certo?"

Sim, mas a questão que tens colocar é: Não está já qualquer jogador profissional, que jogou e treinou futebol durante 5/10/15/20 anos, preparado fisicamente para as exigências do jogo? Claro que está... E claro que há exceções...

Então, porque haverás tu de "perder" tempo a preparar musculatura que já está apta? Então a única adaptação que vejo ter sentido é a das capacidades físicas implicadas no teu modelo. Que é afinal, o tipo de esforço que os jogadores vão enfrentar no resto do ano, e é a esse tipo de esforço que os jogadores se devem adaptar. Não a outro qualquer...

Mas sim, um jogador com essas capacidades físicas, vai sempre adaptar-se fisicamente ao teu modelo. Só que não faz sentido "perder" tempo com quem já está apto...

Anónimo disse...

"Sim, mas a questão que tens colocar é: Não está já qualquer jogador profissional, que jogou e treinou futebol durante 5/10/15/20 anos, preparado fisicamente para as exigências do jogo? Claro que está... E claro que há exceções..."
(...)
Mas sim, um jogador com essas capacidades físicas, vai sempre adaptar-se fisicamente ao teu modelo. Só que não faz sentido "perder" tempo com quem já está apto..."

Concordo inteiramente. Quem já tem essa base atlética, provavelmente já está no patamar em que o treino de força tem um retorno diminuído e deve portanto treinar o jogo quando muito sendo o treino de força em modo de manutenção ou off-season quando aplicável.

O treino de força ou desenvolvimento desta base atlética se calhar faz mais sentido nos escalões de formação e para reabilitação de jogadores após lesões ou outro motivo.

Pelo artigo original o que me parece é que em muitos casos se identificou uma lacuna do jogador e se tentou fazer um treino de força para melhorar as características atléticas do jogador.

A interpretação que eu faço é que a lacuna que o jogador tinha ou era inexistente ou não é importante para aquilo que é o jogo ou que até era importante mas o treino foi mal programado. Não concordo é que existe algo de intrinsecamente mau com um treino de força para um atleta seja ele de qual desporto for, desde que não se perca a noção do objetivo, ou seja, que o objetivo do treino é melhorar a performance do atleta não faze-lo ganhar uma competição de powerlifting ou atingir uma percentagem arbitrária de massa muscular.

Roberto Baggio disse...

Sim, finalmente chegamos a um acordo concordo a 100%

Anónimo disse...

Em face das recentes performances de CR sera talvez altura de revisitar este tema??

Nuno Ferreira