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domingo, abril 28, 2013

Jogadores vs Principios


Uma equipa de futebol para jogar bem, necessita mais de bons princípios que de bom jogadores. Obviamente que melhores executantes trarão maior qualidade a uma equipa, no entanto sem princípios coletivos bem trabalhados nunca conseguirá jogar futebol com qualidade.

Durante a última semana falei com várias pessoas sobre os jogos Benfica-Sporting e Fenerbahce-Benfica e a maioria das pessoas concordou que em ambos os jogos o Benfica jogou mal. Durante a última época o Benfica tem jogado num 4-1-3-2, com os seus médios-ala bem abertos nos flancos e com pelo menos um dos pontas de lança móveis. Como Jesus diz, a equipa joga na vertigem, com transições rápidas, com a bola a entrar nos alas e estes a causarem desequilíbrios ou por acções individuais ou por combinações com médios e pontas, criando superioridade numérica nos flancos.

Sempre que o Benfica defronta uma equipa com maior qualidade táctica sente bastantes dificuldades em jogar bem. Principalmente porque não consegue dominar o jogo no corredor central (normalmente em desvantagem numérica a meio-campo) e não consegue criar tantos desequilíbrios pelos flancos. Quando em posse de bola, a opção nestes jogos passa por jogar longo num dos pontas de lança, recorrendo a passes longos, com menor eficácia. A equipa fica muito comprida, o apoio não surge prontamente e fica mais dependente de acções individuais.

Por opção do seu treinador ou pelas dificuldades colocadas pelos adversários, o Benfica não utiliza os mesmos princípios de jogo em todos os jogos. A meu ver, esta é a razão pela qual se diz que o Benfica não jogou bem contra o Sporting ou Fenrbahce. A equipa não conseguia criar superioridade em nenhum sector, não conseguia progredir com frequência e sentia necessidade de bater longo. Ouvi há uns tempos Jesus dizer que “as grandes equipas não se viam na saída de bola”. Estou totalmente em desacordo porque é na saída de bola que definimos como vamos jogar, se curto, se longo, se apoiado, se desarticulado e por aí fora.
A razão pela qual o Benfica ganhou ao Sporting foi por ter melhor executantes (o que não tira nenhum mérito à vitória, diga-se) e não por ter melhores princípios de jogo. Se dúvidas existissem, penso que o jogo na Turquia veio esclarece-las. É certo que Jesus apostou numa táctica diferente, no entanto os defeitos vistos contra o Sporting observaram-se de novo: bola longa no ponta de lança, meio campo em desvantagem numérica, pouco futebol apoiado, pouca criação de jogadas de perigo o que resultou em poucas oportunidades de golo.

Na outra face da moeda temos equipas como o Estoril, o Guimarães ou o Paços de Ferreira. As políticas de recrutamento das três equipas são diferentes, no entanto em comum tiveram a decisão de contratar bons treinadores, jovens, com ideias renovadas e mentalidades descomplexadas.

Recentemente vi o jogo entre Estoril e Braga, em que o Estoril saiu vencedor. O Estoril claramente não tem melhor jogadores que o Braga, contudo neste jogo demonstrou melhores princípios colectivos, especialmente no processo ofensivo. O que mais me impressionou neste jogo foram os sprints sucessivos dos centrais do Estoril para criarem sempre linhas de passe válidas e seguras, alargando o campo, o que permitiu à equipa sair a jogar curto e com bola controlada desde a linha defensiva. Os seus médios apoiam bem os centrais e laterais e os extremos e ponta de lança são bastante móveis, o que cria desequilíbrios nas defesas contrárias.

 Há 5 anos atrás, nunca veríamos este tipo de comportamento em centrais de equipas chamadas “pequenas”, provavelmente porque não receberiam dos seus treinadores os estímulos para tal. Actualmente, as “equipas pequenas” jogam melhor futebol e têm melhores resultados sendo que não têm melhores infraestruturas de trabalho, maiores orçamentos ou melhor formação. As que se destacam são frequentemente as que apostam em melhores treinadores, que compreendam melhor o que é necessário para a equipa ganhar.

Outro exemplo bastante claro é o Sporting. Existe um Sporting antes e após Jesualdo e tal não se deve ao aumento da crença ou da vontade dos jogadores.
A equipa do Sporting antes de Jesualdo assemelhava-se às equipas dos jogos entre amigos que gostam de jogar e ver futebol. Era uma equipa que até se posicionava bem, até tentava jogar apoiado, mas ao mínimo desequilíbrio cedia, abria espaços na sua defesa ou perdia a ligação entre sectores na fase de ataque (daí o VW andar sempre só na frente de ataque ou o Capel correr 20m com bola sem apoio). Era impossível identificar processos nessa equipa pré-Jesualdo; ninguém percebia se pressionavam alto ou baixo, se saiam em posse ou jogavam longo, se preferiam abrir o campo ou fechar ao meio.   

Pós-Jesualdo, vemos uma equipa a pressionar bem, a criar desequilíbrios no meio campo a seu favor, não só na recuperação de bolas mas também no processo ofensivo graças à dinâmica dos seus médios, vemos os extremos regularmente apoiados pelo lateral, médio ou ponta de lança, vemos os centrais a sair em posse de bola e preferencialmente a jogar curto e, vemos fundamentalmente a equipa muito mais equilibrada em campo (independentemente da qualidade do Rinaudo) quer no processo ofensivo, quer defensivo. O plantel é semelhante (mais reduzido) e a táctica é a mesma (4-3-3), no entanto Jesualdo tem feito um muito melhor trabalho que os seus antecessores, por transmitir à equipa ideias claras do que pretende e por conseguir treinar a equipa de forma a por em campo essas mesmas ideias.

Existem inúmeros exemplos que ilustram o que quero dizer, desde Mourinho a Guardiola, passando por Klopp ou Heynkes. Uma equipa de futebol (na verdadeira ascensão da palavra) deverá ser mais que a soma das qualidades dos seus jogadores. Para potencia-los é conveniente que estes saibam o que fazer em campo, como o fazer e quando o fazer. A compreensão e execução dos princípios e processos de jogo de uma equipa são a chave para o sucesso e a sua sistematização garante uma maior eficácia em busca da vitória.  

14 comentários:

Roberto Baggio disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Roberto Baggio disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Roberto Baggio disse...

Claro que quanto mais qualidade tiverem os teus jogadores, mais eficazes serão os processos/princípios de que falas.

É exactamente por esse factor (Adaptabilidade) que prefiro o VP ao JJ. Porque o VP adapta-se ao adversário sem perder os princípios de jogo (colectivos) que a equipa apresenta, dessa forma a equipa torna-se mais competente nesses mesmos princípios pela regularidade com que os apresenta.
O JJ prefere adaptar princípios consoante a força dos adversários deixando tudo muito ao valor das suas individualidades, fazendo com que a equipa não se torne muito forte numa vertente e não ganhe uma identidade e matriz colectiva super, super forte (apesar de toda organização que possa apresentar).

Gonçalo Matos disse...

Concordo contigo Blessing! O segredo do bom treinador é manter a identidade da equipa independentemente do adversário e independentemente dos ajustes tácticos necessários

Luis Santos disse...

Boas!

Sobre a relação entre os executantes e a qualidade do futebol da equipa, o Klopp tem uma afirmação interessante:
"Obviamente, si un entrenador tiene jugadores regulares, intentará hacer un buen equipo. Si tienes buenos jugadores, harás un equipo muy bueno. Y si tienes muy buenos jugadores, intentas hacer un equipo excelente. Y si tienes jugadores excelentes, buscas hacer un equipo excepcional. Así funciona esto bajo mi modo de ver el fútbol."

Já agora, uma pergunta: Dás como exemplo o Mourinho, mas não achas que contra o Dortmund mudou os princípios?
Na minha opinião, quando escolhe Modric ao lado de Khedira com Xabi a pivô e Ozil numa ala, não pode estar à espera de jogar sobre os mesmos princípios que nos outros jogos (também pelo desenho tático, mas sobretudo pela escolha dos jogadores).

Abraço!

Roberto Baggio disse...

Boas Luís,

O Gonçalo já deve aí vir,
Mas na minha opinião, Mourinho já foi esse treinador que não mudava quase nada na equipa. Colocando apenas algumas nuances estratégicas (tão pouco evidentes, que parecia sempre que estava tudo igual, não interferindo com o modelo de jogo). Hoje parece-me que Mourinho está como o Jesus... Muda demasiado para que a equipa se possa tornar regularmente eficaz nos "grandes" princípios de jogo/comportamentos que o modelo de jogo dele tem.

Abraço

Gonçalo Matos disse...

Olá Luís,
Concordo, o Mourinho de facto mudou em demasia.. Não acho que seja tanto pelos jogadores que colocou, mas sim pelo que pediu à equipa. E se não pediu nada, então por não ter reagido. O Real bombeou demasiadas bolas para a frente, a tal ponto que os médios mal integravam o processo ofensivo e como perdiam a bola, não se encontravam bem posicionados defensivamente. O Gundogan, que não é propriamente conhecido pelo seu jogo defensivo acabou por dominar o campo e recuperar muitas bolas. Tenho a opinião de que Mourinho este ano contava que Essien lhe desse algo que não deu, doutra forma não consigo perceber a falta de soluções que o plantel demonstra ter no meio campo.
Foi o jogo mais apático que vi o Mourinho fazer, não mexeu na equipa correctamente e não corrigiu o posicionamento dos seus jogadores.
Quanto à frase do Klopp não conhecia, mas era mesmo nisso que estava a pensar!A equipa é mais que o somatório das características individuais dos jogadores!

Blessing, acho que a razão porque ele agora muda mais, terá a ver com as mudanças que teve de fazer à equipa para poder derrotar ou equilibrar os jogos contra o Barça. De qualquer forma acho muito estranho ve-lo fazer isso.. Algo que admirava no Mourinho era precisamente a qualidade que as suas equipas tinham nos principios básicos do jogo (para mim o expoente máximo é o jogo do Inter em Barcelona com 10 homens) independentemente da disposição táctica. Espero que seja só uma fase..

André Ferreira disse...

É verdade que o Mourinho tem pecado algumas vezes por alterar principios quando joga com adversários difíceis (e sempre fui bastante crítico em relação a isso) mas penso que este ano não é nada disso que se passa, o Real que jogou contra o Dortmund não mudou grande princípios, joga mesmo assim, bola no Ronaldo e fé em deus. Mudar os jogadores não muda grandes princípios porque esses são colectivos, muda sim a sua interpretação e a execução e consequentemente algumas dinâmicas. Com a mudança dos jogadores Mourinho até queria acrescentar qualidade e critério em termos ofensivos. Ter Modric em vez de Di Maria era teoricamente um grande salto qualitativo na capacidade de ter a bola mas acabou por afastar Ozil do jogo. Concordo contigo Gonçalo quando dizes que Mourinho não esteve bem com as substituições devia ter mexido bem antes. Mas não concordo quando dizes que podia ter contrariado a equipa quando esta começou a recorrer frequentemente a lançamenos longos, não concordo porque esse é um tipo de jogo que a equipa sempre recorreu nesta época, está no seu ADN e única forma de corrigir isso é no treino, no jogo só iria fazer de papagaio.

Gonçalo Matos disse...

André,
Este ano tu vês o Real a jogar directo muitas vezes, principalmente no Ronaldo, mas com algum critério. não acho que seja apenas despejar bolas no Ronaldo e esperar que este resolva, normalmente são passes que conseguem desequilibrar o adversário, ou por variarem o flanco ou por lançarem no espaço. O que queria dizer é que nem isso viste em Dortmund, apenas se viam chutões para a frente. Concordo quando dizes que é apenas nos treinos que consegues mudar a equipa e lanço-te uma questão, achas que é isto que Mourinho pede? Eu acho que não..

André Ferreira disse...

Eu percebi o que querias dizer, e volto a dizer o mesmo, o Real este ano já se fartou de recorrer a esse tipo de jogo quando está a perder. O criterio de que falas é sempre o mesmo, desmarcação de rotura do Ronaldo e seja de onde for eles tentam pôr a bola nele. A diferença é que o Dortmund é uma equipa um milhão de vezes mais organizada e com mais talento do que aquelas que o Real costuma defrontar, por isso a eficácia desse tipo de lances foi próxima de zero. Para responder à tua pergunta se eu acho que o mourinho o pede? Obviamente que não é isso que o mourinho quer como padrão de jogo mas não tenho dúvidas que ele acha que nessas situações se justifica esse comportamento pois como já disse a equipa farta-se de recorrer a isso e se ele não quisesse já o tinha corrigido.

André Ferreira disse...

Eu sei que é algo difícil de acreditar, o Mourinho querer ma parvoíce dessas mas ultimamente o José anda cheio de parvoíces e como tenho ouvido e muito bem, esta equipa foi a pior equipa que já vimos do Mourinho (Leiria incluido)

Roberto Baggio disse...

Subscrevo André

Gonçalo Matos disse...

Também concordo.

Signori disse...

Concordo com esta ter sido a pior equipa de sempre do Mourinho

Não percebo essa das melhores equipas não se verem na saída de bola. vi o vídeo do fmh, mas não me recordo como justifica isso.
Os centrais para mim são fundamentais no futebol moderno, e jogar com eles abertos a participarem do processo ofensivo, a oferecerem linhas de passe, a encurtarem e alargarem o campo em posse, é assim que uma EQUIPA de futebol deve jogar. Compreendo que no futebol há muita gente em campo, 11, e às vezes é difícil encontrar 10 com aquelas características que pretendemos, mas se fosse treinador, nem que metesse médios a centrais, como Mascherano, porque centrais com qualidades técnicas e de passe fazem a equipa atacar melhor. Imaginem a diferença. Por vezes vemos equipas a jogar para trás, para o central quando em posse e o jogo acalma, a outra equipa organiza-se melhor, etc. Quando são centrais de qualidade, ao receberem a bola variam o jogo rapidamente, se der metem passes de rotura entre linhas, e funcionam como mais uma opção para a construção, em vez de funcionarem como último reduto de segurança, como quando se está apertado e se joga para trás. E cada vez mais o GR tem essa função também. Mas isto tudo já tem que ver com as características que se privilegiam na formação e a ideia retrógada de que centrais são para dar cacetada e ganhar bolas de cabeça.