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segunda-feira, abril 01, 2013

Cruzamentos, cruzamentos e mais cruzamentos!


Em organização ofensiva tenho visto muitas equipas optarem invariavelmente pelo cruzamento, sem que isso seja a melhor opção. Muitos comentadores desportivos e adeptos, quando vêm o jogo, fartam-se de dizer que a equipa não tem largura, que a equipa não chega a linha de fundo, que a equipa faz poucos, muito poucos cruzamentos, dizem que os laterais são pouco ofensivos apoiando pouco este tipo de acções e a isso atribuem a falta de criação de oportunidades de golo da equipa. 
Segundo o portal da FPF, no jogo contra Israel Portugal fez 50 ataques. Desses 50, 40 acabaram em cruzamento, tendo apenas 1 acabado em golo. Isso dá um total de 80% dos ataques da equipa e com uma percentagem de sucesso de 2.5%, não é preciso saber muito de matemática para entender a falta de eficácia dos tais cruzamentos que toda gente pede.
Então se a equipa tem largura, se os laterais chegam a linha de fundo e cruzam (Pereira 8, Coentrão 7) porque raio a percentagem de sucesso é tão baixa? Porquê que em 40 cruzamentos apenas um deu em golo? Por vezes, há quem esqueça que existe um adversário a jogar contra nós...
Aqui fica a resposta.

Os números enganam, muitas vezes, e isso não serve de justificação para o meu pensamento. O que me serve de base é o pensar sobre os princípios fundamentais de jogo: RECUSAR inferioridade numérica, EVITAR igualdade numérica, CRIAR superioridade numérica. Esses princípios são para ser cumpridos no ataque e na defesa! Têm igual importância nos dois momentos e devem ser entendidos como são, com e sem bola.
São princípios que todos sabem, ou deviam saber. Quer dizer, são princípios de que todos ouvem falar mas muito poucos pensam sobre eles, sobre a consequência dos mesmos e sobre a sua real importância.
Esses princípios de acção, por si só, conseguem dizer se estamos mais próximos de ter sucesso ou a reduzir as nossas chances de conseguir o nosso objectivo (golo). Então como podemos pedir indiscriminadamente cruzamentos ou chegadas a linha de fundo? O que podemos pedir é que se faça o que o jogo pede a cada momento, e os cruzamentos e chegadas a linha de fundo não são sempre a melhor opção.

Se o adversário está com a estrutura fixa, rígida e compacta, se não tenta recuperar a bola em nenhuma zona do campo que não seja próxima a sua grande área, se estão constantemente organizados, então de nada vale fazer jogo exterior e consequente cruzamento. 
É preciso primeiro desorganizar a equipa adversária e tira-la da sua zona de conforto. É preciso provocar saídas de elementos das suas zonas de acção para que se criem espaços, é preciso CRIAR superioridade numérica, é preciso EVITAR igualdade numérica e é mesmo importante RECUSAR inferioridade numérica... É preciso cumprir com os princípios gerais de jogo, de forma a aumentar a criação de oportunidades de golo. 

Penso no princípio ofensivo de largura como uma forma de a equipa desorganizar o adversário, fazendo-o correr mais na tentativa de recuperar a bola. É esse para mim o grande objectivo do princípio. Não é o de conseguir cruzamentos, é o de aumentar o espaço que o adversário tem de percorrer aumentando as hipóteses de desequilíbrios na sua estrutura. Tornando, dessa forma, impossível que os seus elementos consigam cobrir todas as zonas do campo, obrigando-os a cobrir, apenas, as que achem mais relevantes, fazendo dessa forma com que se concentrem menos jogadores noutras zonas.

Reparem na acção dos anti-corpos quando um elemento estranho entra na sua estrutura...
Então, para mim, desorganizar o adversário é fazer jogo interior. Entendo como jogo interior, jogar dentro do bloco adversário, dentro da sua estrutura. Dessa forma obrigo o adversário a agir sobre o "intruso" dentro da estrutura e essa acção vai implicar desequilíbrios noutras zonas do campo, que consequentemente me vai permitir CRIAR a tal superioridade numérica ou pelo menos RECUSAR a inferioridade aumentando as minhas chances de sucesso. Devo circular a bola, numa primeira fase de forma segura, para garantir a sua posse e chegada dos apoios, mas posteriormente, devo com ela "PROVOCAR" constantemente o adversário, para que aja sobre a bola. Atenção que jogo interior não significa sempre jogar pelo centro do campo. Uma vez que a estrutura adversária pode estar organizada de várias formas, dependendo da zona da bola, devo jogar para o interior da estrutura adversária.

Não é que não goste de cruzamentos, não é que ache que são uma perda de tempo. Acho é que fazer cruzamentos sem, primeiro, garantir pelo menos um dos princípios básicos de jogo (RECUSAR inferioridade numérica) é um desperdício. 

No golo de Coentrão no final do jogo contra Israel, consigo ver 5 coisas: 

Princípio de largura, com o extremo (Vieirinha) junto a linha garantindo  um adversário perto dele. Ou seja, menos concentração de jogadores noutra zona (grande área);
2º Martins colocado dentro do bloco adversário pronto para receber a bola, abrindo outra possibilidade de passe a Pereira. Com essas linhas de passe que se criaram, e tendo saído um jogador a Pereira, naquela zona Portugal CRIOU superioridade numérica (3x2), o que permitiu a Martins virar, enquadrar e cruzar com sucesso.
3º O facto de a bola ter sido colocada em Martins, chama a atenção de dois dos médios Israelitas provocando a sua atenção para o facto de ele poder criar perigo dentro da sua estrutura. Tal como a acção de Vieirinha isso foi fundamental para permitir menos jogadores, adversários, concentrados na grande área.
4º Na altura do cruzamento, na área havia IGUALDADE numérica, o que nos confere alguma vantagem, mesmo não sendo a situação ideal, é uma vantagem importante.
5º Não foi preciso grande circulação de bola, não foram precisos 20 passes para fazer o adversário correr, não foram precisos estratagemas avançados com vários tipos de combinação ofensiva, não foi preciso chegar a linha de fundo...

Para aumentar as nossas hipóteses de sucesso foi preciso, apenas, JOGAR BEM
E jogar bem é tentar cumprir com os princípios básicos de jogo, só isso.

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