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segunda-feira, maio 22, 2017

A vitória de Pochettino e Guardiola numa liga onde Conte é campeão

Este texto não pretende beliscar a incontestável vitória do Chelsea na liga. Conte foi o treinador que mais mereceu vencer o campeonato porque conseguiu traduzir as regularidades do seu jogo em pontos. Muitos pontos! É uma equipa do treinador, onde se percebe em cada momento que há uma ideia pela qual os jogadores procuram. E mais do que isso, é uma ideia que foge do idealismo de que em Inglaterra deves ser inglês. De que te deves adaptar ao futebol que se joga, em vez de impores o teu estilo adaptado ao que os jogadores conseguem fazer. Conte ganhou porque decidiu ser ele próprio, e nada inglês.

Guardiola triunfou. De forma menos evidente do que noutros anos, mas conseguiu uma pequena, pequeníssima vitória, que poderá ser o fundamental para conseguir traduzir a sua forma de jogar em títulos. É uma vitória tão importante que poderá dar a estabilidade emocional que os seus jogadores necessitam, que a sua ideia de jogo exige, para que sejam mais regulares na exibição das matrizes do seu jogo. Conquistou o público.
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O aplauso ao passe para trás, ao atraso para o guarda-redes, mostra uma mudança que não é fácil conseguir em tão pouco tempo, ainda para mais sem títulos associados. Ou seja, sem o sucesso de uma vitória massiva Guardiola conseguiu que o seu público abrisse os seus horizontes e se juntasse à equipa naquilo que é um dos pilares fundamentais do seu jogo: cada passe para trás é a possibilidade de se começar um novo ataque. E é, sobretudo, a possibilidade de se começar um novo ataque em melhores condições do que as anteriores. E se é difícil para quem trabalha diariamente o entender, um reforço do público, do ambiente que os envolve, poderá dar à equipa o impulso necessário para nas situações de maior tensão continuarem a fazer o jogo que estão habituados. O jogo que treinam e que os distingue. Um jogo menos inglês, menos partido. O jogo que procura pelas melhores situações de ataque, e o jogo que permite que sejam a equipa que mais vezes consegue entrar dentro da área adversária e criar situações de golo, ainda que não concretizem.

A vitória de Pochettino é um pouco mais notável que a de Guardiola, porque consegue em dois anos consecutivos competir contra equipas de valor individual e poder financeiro bem superior. É, mais uma vez, o segundo classificado, o melhor ataque e a melhor defesa. E tudo isto assente num fundamento que se limita a seguir a lógica do jogo: se temos a bola temos mais possibilidades de marcar e menos possibilidades de sofrer. É por não ser inglês, nada inglês, que Pochettino triunfa consecutivamente sem os argumentos dos maiores clubes ingleses. É a melhor defesa porque não dá a bola por nada, e é o melhor ataque porque procura seleccionar melhor que o adversário os caminhos para finalizar. Não acredita no jogo das divididas e das segundas bolas; Joga em passe, em muitos passes. Se fizermos um exercício injusto* de um campeonato com duas épocas seria ele o campeão. Quando se fala de sucesso à longo prazo, e de formas de jogar o jogo melhores do que outras por garantirem melhores resultados ao longo do tempo, é muito isto. Mais pontos, mais golos marcados e menos golos sofridos, na regularidade.


* (Injusto porque Conte, Guardiola, Klopp e Mourinho não estão há dois anos nos respectivos clubes)

segunda-feira, abril 03, 2017

A Circulação Vertical e a Utilização da Largura

A circulação horizontal (em largura) ainda é falada como uma das principais formas de desorganizar o adversário. Até bem pouco tempo onde as referências eram mais individuais do que zonais, tal fazia sentido. Qualquer passe, em qualquer direcção ou sentido, obrigava a um deslocamento e a uma investida na direcção da bola porque esta tinha chegado ao jogador que se estava a marcar. E se isso fosse feito com velocidade, como ainda se fala hoje, mais ainda seriam os efeitos dessa circulação. Com a evolução dos métodos defensivos, com a defesa zonal e com os últimos tempos da marcação individual como a conhecemos os conceitos mudam e as realidades evoluem. Deixa de ser suficiente para desorganizar a equipa adversária circular a bola fora do bloco, em largura, por mais velocidade que se meta nessa circulação.

Com as marcações mistas, e com as equipas a defenderem mais juntas, impõe-se um tipo de jogo mais vertical que obrigue o adversário a reagir e a investir sobre bola para se criarem espaços. Como o adversário está interessado em defender espaços mais do que defender o homem, para o desorganizar e cansar deve-se incentivar a que este saia da sua zona passiva e tenha uma atitude mais pressionante. Tal faz-se usando a bola como engodo. Não é que a circulação horizontal deixe de fazer sentido, e que não permita ultrapassar um ou outro elemento da organização defensiva contrária. Permite guardar a bola com segurança para descansar, permite tempo para que a equipa se (re)organize na sua estrutura posicional definida para começar o jogo ofensivo, e também permite que se encontrem outras possibilidades para se invadir o bloco adversário. Mas se o objectivo for criar espaço, então o melhor é desposicionar o adversário sem lhe dar hipótese ou aos colegas de reagir a tempo de fechar o espaço que foi criado. Atacar a profundidade, usar o apoio frontal para provocar a pressão, ou fazer uma variação de flanco em diagonal (largura e profundidade) para criar desequilíbrio na estrutura adversária. Mesmo em termos de desgaste normalmente diz-se que circular a bola muito rápido cansa o adversário, mas se a circulação for demasiado horizontal e fora do bloco, que não obrigue a saídas das posições definidas, a ajustes e compensações o desgaste será sempre muito pouco. Não há nada que desgaste mais do que uma obrigação de investir rapidamente sobre a bola, e a consequente obrigação de fechar o espaço que ficou livre pela saída do colega da sua zona; pela aproximação da bola e do adversário do bloco defensivo, da linha defensiva, da baliza. As constantes acelerações e travagens no sentido de uma baliza e de outra (para trás e para frente - sair na bola e voltar para uma posição que pode não ter nada a ver com a posição inicial em relação aos colegas) são do mais exigente do ponto de vista físico e mental que pode existir.

A circulação em "U", que utiliza a largura como referência para fazer o adversário bascular de um lado para outro (mesmo que com uma variação horizontal longa de corredor para o lado contrário) tem hoje face às novas organizações defensivas poucos efeitos práticos. A largura deve ser utilizada, sim. Mas de forma circunstancial, apenas como referência para encontrar espaços centrais, ou em situações de ataque à última linha do adversário. Uma equipa que faça da circulação vertical o seu ponto forte (que utilize apenas a largura pontualmente para retirar de pressão, para encontrar outros ângulos para atacar o corredor central, e para para causar constrangimento à última linha do adversário), que saiba exactamente os efeitos da circulação vertical e esteja trabalhada para aproveitar os espaços que daí se criam será sempre a equipa contra a qual o adversário sentirá maior desgaste. O Nápoles talvez seja, hoje em dia, a equipa que melhor faz uso dessa circulação para criar espaço, e que está melhor preparada para o aproveitar.

segunda-feira, março 06, 2017

Perder hoje para vencer amanhã

A frase de Jorge Jesus, e é sobre o que deveria ser a filosofia do Sporting no que sobra da época. No entanto, cada vez melhor se percebe que o Sporting contratou um treinador com uma ideia, para uma ideia, e que por isso haverá um preço talvez demasiado alto a pagar no médio e no longo prazo.

Urgem os títulos no Sporting. E por isso a opção de Bruno de Carvalho por um treinador que em Portugal garantiu títulos noutro grande, num passado recente, percebe-se. Mas, para tal, é fundamental dar-lhe o que ele precisa para triunfar. Os jogadores com o perfil que ele gosta, e com qualidade suficiente para superar o modelo táctico que ele exige. Neste momento, o Sporting não cumpre com o que Jorge Jesus exige, e talvez por isso o caminho seja tão atribulado.

O parágrafo anterior contem um dado fundamental para o momento actual do Sporting, porque o treinador mostra-se com dificuldade em responder à uma mudança abrupta de contexto. E não, não é dos resultados que se fala. Sabendo-se que com Jesus a equipa é orientada para o rendimento imediato, e percebendo-se que os títulos são quase utópicos, o Sporting parece preso na ideia de que lhe falta qualidade para cumprir com o que se predispôs no início da época. O caminho é hoje diferente, mas o treinador do Sporting não está disposto a abdicar da sua filosofia em prol do novo contexto onde está inserido. Parece não querer adaptar-se, e ter até algum receio de percorrer os novos caminhos. Isto é, os putos imberbes do Sporting (não tão imberbes assim por se terem mostrado capazes de triunfar na primeira liga) têm qualidade ou não? Qual é a opinião do treinador? E a do clube? Na minha opinião sim. Há muita qualidade ali, demasiada para não ser aproveitada. E o último obstáculo a ultrapassar é a exigência de jogar num grande. A exposição ao erro, e a mediatização de todos os momentos que são esmiuçados ao detalhe. No fundo, a pressão. Sabendo-se que os títulos estão longe do horizonte esta época, e que os miúdos podem dar um salto fundamental para o aumento da qualidade de jogo do Sporting ("sem gastos"), faz sentido continuar a escondê-los do jogo? Não fará mais sentido do que nunca não pensar nos resultados no imediato para garantir craques num futuro bem próximo? Serão Podence, Geraldes, Iuri, Matheus e até Gauld, merecedores de um futuro diferente pela diferença que poderão fazer no Sporting do futuro?

domingo, fevereiro 26, 2017

Jorge Jesus e o que separa os bons dos melhores: A Soberba.

Já todos conhecem a minha opinião sobre Jorge Jesus: é um fantástico treinador. As equipas por onde passa tendem a personalizar a sua ideia de jogo em campo, e a cumprir com as directrizes a que os obriga quase ao milímetro. Assim o é, fantástico, porque tem o conhecimento que separa os melhores dos bons: o técnico, ou se quiserem, o táctico. Ninguém tem mais conhecimento táctico que o treinador leonino, passe o exagero. São muito poucos os que conseguem operacionalizar de forma tão fiel o que lhes vai na cabeça. Porque o jogo não depende dele, depende do entendimento e posterior reprodução de outros elementos daquilo que o treinador lhes tenta passar: aprendizagem. É isto que Jesus oferece. Ainda hoje, na conferência de imprensa no final do jogo na Amoreira, Jorge Jesus voltou a dar mais uma prova cabal do seu conhecimento táctico da modalidade e da ideologia que ele quer transmitir, ao admitir que o Sporting tem sido uma equipa pouco rigorosa nos posicionamentos defensivos. Desde a linha defensiva, aos médios e avançados, que têm adoptado posições muito fora daquelas que são as consideradas como ideais. Por isso, nunca concordei quando foram dizendo, e ainda dizem, que a Jesus faltam skills na comunicação. Não concordo porque percebo que ele consegue transmitir exactamente o que quer com maior ou menor dificuldade na linguagem. Os jogadores entendem, a equipa técnica e todo o staff do clube entende, os jornalistas entendem, e o público que o ouve e dele faz chacota (pelo mau português) também entende. Nunca ficam dúvidas do que ele quer, quis, ou quererá dizer; e isso, amigos, é comunicar bem. A mensagem passa. Porém, em mais uma conferência de imprensa deliciosa pelo conhecimento que transmite das situações de jogo, e da influência que os golos marcados ou falhados têm na estabilidade emocional e táctica da equipa, deixa uma vez mais uma mancha naquilo que são as competências relacionais que qualquer um dos melhores treinadores deve ter. São demasiadas as vezes em que chama a si o protagonismo e relega para segundo plano aqueles que o público paga bilhete para ver: os jogadores. Parece esquecer-se consecutivamente que ao fim do dia é deles que depende. Ser treinador é na maior parte do tempo perceber que o nosso papel tem relevo mas é secundário, e que a ribalta é sempre, mas mesmo sempre, para os jogadores. Porque quando Jorge Jesus ensina e eles têm sucesso o mérito é conjunto (jogador e treinador), mas se tivesse falhado o jogador ficaria abandonado num coro de críticas muitas vezes iniciado por quem o "ensinou".

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No fundo, o conhecimento táctico é o que separa os bons dos melhores. Mas nenhum poderá pertencer ao grupo dos melhores sem as competências relacionais que permitem gerir um grupo sobre o qual um treinador tem responsabilidade.

sexta-feira, fevereiro 24, 2017

O gradual desaparecimento de Óliver

Têm sido muitas as reacções no sentido do mau investimento que foi a compra de Óliver Torres, e ainda que possa chocar concordo absolutamente com essas apreciações. Óliver Torres tem piorado ao longo do tempo, e a sua influência no futebol da equipa, o seu rendimento, não é o mesmo. Não tem aparecido com o fulgor que nos habituou, e com a  superior qualidade da construção à criação. Por isso, reitero, foi uma compra despropositada.

"Lá fora perguntam-me constantemente como é que se vai buscar jogadores ao futebol português se as equipas não nos permitem perceber as qualidades deles de forma consistente, por estarem maioritariamente envolvidos em tarefas defensivas ou em duelos"
A frase é de José Boto, uma das minhas actuais referências.

Em Portugal é difícil encontrar uma equipa que permita aos seus jogadores mostrar qualidades ofensivas distintas, e há jogadores que não se conseguem expressar em campo, mostrar o que de melhor têm, porque o jogo que se joga não os favorece. O exemplo máximo é Xavi. O jogador mais incrível que passou pelo futebol ao nível da tomada de decisão, sem intensidade para recuperar defensivamente e força que vença duelos, para vergar o mundo à sua superior qualidade necessitou que o jogo desse uma volta no sentido de o beneficiar. E tendo-o beneficiado, não houve ninguém melhor do que ele. Passou a ser o jogador que corria mais, porque corria para ser uma linha de passe constante; passou a ser o jogador que mais recebia a bola, por consequência de ser sempre uma linha de passe e dos colegas reconhecerem a influência que tinha para todo o jogo da equipa. No fundo, Xavi sempre foi aquilo que o ambiente onde esteve inserido quis fazer dele.

O mesmo se passa com Óliver, Rúben Neves, e até com Diogo Jota. Talento não lhes falta, e já se mostraram capazes de o expressar. O problema é que a medida que o tempo passa o jogo da equipa vai mudando, a equipa vai ficando cada vez mais parecida com o que o treinador quer, e o efeito de jogar com outros talentosos em campo vai-se esfumando. A escolha do onze, que continua a ser fundamental para fazer um futebol grande (como foi aparecendo quando os talentos andavam soltos) perde a influência que tinha porque o jogo é outro. Não é num jogo de duelos, de procura constante da profundidade, que se podem notabilizar estes talentos. Tão pouco é num futebol que se quer jogar sem bola. Para o rendimento de Óliver voltar a ser constante, e não apenas de momentos, a equipa precisa de em primeiro lugar de querer mandar no jogo. Querer ter bola, e ter uma ideia diferente da forma de a utilizar para chegar ao golo. Para que Óliver tenha mais tempo a bola, esteja mais envolvido no que de melhor pode dar ao jogo. Para que os colegas comecem a perceber que o jogo da equipa será tanto melhor quanto mais vezes a bola passar por ele. Depois o treinador precisa de ter a coragem para deixar que sejam os jogadores os protagonistas. Soltar os talentos em campo, os inteligentes e de qualidade técnica assinalável. Para que cada vez mais, e cada vez melhor, joguem uns com os outros. Que sejam eles a criar os melhores princípios da equipa, e a gerir o jogo, por terem percebido onde e quando é que o colega vai aparecer e em que condições gosta de receber a bola. No fundo, treinar para que os talentosos joguem em função uns dos outros e comecem a intuir as intenções do colega antes dela acontecer. Porque é isso que dá velocidade ao jogo e surpreende o adversário. Ver antes é muito isto. Para Rúben Neves, Diogo Jota, e Óliver Torres voltarem a ser inquestionáveis, o jogo é que tem de se adaptar a eles e não o contrário. Comprar Óliver, pedir Jota e ter formado Rúben Neves são opções irresponsáveis se o futebol da equipa não "chamar" pelas suas melhores qualidades. E que qualidade têm eles.

quarta-feira, fevereiro 22, 2017

A efusiva celebração de Guardiola

Enquanto Guardiola festejava efusivamente, eu pensava sobre as coisas fantásticas que este treinador fez pelo jogo, e sobre que coisas estaria ele a festejar efectivamente. Claro que será impossível dissociar tal celebração do momento que a equipa vive na Premier, muito longe do primeiro classificado; quando a expectativa inicial, reforçada pelos primeiros jogos ao serviço do City, seria a de estar a lutar ponto à ponto pelo título. Percebendo também que a equipa atravessa uma fase de dúvidas, e que o próprio Guardiola se está ainda a adaptar aos jogadores e à mentalidade britânica, é um momento particularmente marcante tendo em conta as incidências do jogo.


Guardiola celebrou uma primeira parte cheia de azares. Onde foi melhor, criou situações para se colocar numa situação confortável e saiu a perder. Dominou o jogo como gosta, teve bola, e encontrou as situações certas para acelerar. Geriu bem a transição defensiva, mas teve alguma falta de rigor na defesa da profundidade. É sempre um risco que ele corre ao atacar em espaços reduzidos, e defender em espaços grandes. Viu-lhe ainda ser negado um penalti, e um Mónaco muito mais eficaz nas situações que criou do que o City.

Guardiola celebrou uma segunda parte cheia de sorte. Viu Falcão falhar um penalti num momento importante, marcou em situações de bola parada, e viu o Mónaco em cima do marcador a desperdiçar situações de igualdade e superioridade com muito espaço por erros de decisão já dentro da área. Viu Yaya Touré, nesse momento (2-3), mentalmente pouco disposto a dar-se ao jogo defensivamente mas a ganhar nova energia e novo foco depois de novo empate (3-3). No final, Yaya já recuperava novamente para perto da linha defensiva reduzindo o tempo para os jogadores do Mónaco a atacarem.

Guardiola celebrou a reacção dos seus jogadores. Por terem recuperado num jogo desta importância das contínuas dificuldades que o Mónaco colocou, tanto no marcador, como nas situações de jogo que criou e na forma como foi defendendo.

Guardiola celebrou com os adeptos. Porque não vai ser fácil tê-los do seu lado sem que eles compreendam o que ele se propõe a fazer por lá. E se há coisa que pode marcar a viragem no clube, na cultura do clube, é a união dos adeptos à equipa e ao treinador. Muitas vezes sozinho esta época, com o público a abandonar o estádio mais cedo, ele continua a enviar-lhes mensagens da importância que tem eles estarem com a equipa.

Guardiola celebrou Aguero. Pelos golos que marcou, mas sobretudo pela importância que teve nos que não marcou. Neste jogo, ganhou a possibilidade de lhe mostrar em dois lances (que se sucederam) o melhor e o pior de Aguero, comparando-o à ele mesmo. Sendo que o melhor teve o melhor reforço que poderia ter: uma jogada de envolvimento com os colegas onde serve de apoio frontal, e no final entrega a notoriedade para Sané fazer o golo; e o pior, bem, foi mesmo o pior. Curiosamente, ou não, era a Sané a quem deveria ter entregue a notoriedade poucos segundos antes.


Guardiola celebrou a vitória de um modelo e de uma ideia de jogo. Porque em vários lances conseguiu colocar tudo aquilo que tanto trabalha do ponto de vista ofensivo em jogo. Conseguiu expor a linha defensiva de Leonardo Jardim, e ataca-la com qualidade. Mas conseguiu sobretudo dois pontos fundamentais daquela que é a sua maior herança para o futebol: 1) Encontrar o homem livre, o melhor jogador para dar seguimento ao lance, o jogador em condições ideais para acelerar o jogo e colocar um colega na cara do golo. Foi dessa forma que conseguiu criar as melhores ocasiões para finalizar. 2) Com isto, fica reforçada a importância do apoio frontal (mesmo com pressão) para colocar-se jogadores de frente para o jogo, sabendo-se que de outra forma as linhas se fechariam e as condições seriam diferentes. Se Yaya de uma qualquer forma coloca logo em Silva os médios do Mónaco estariam mais dentro do lance e mais rapidamente em contenção e dessa forma o foco da linha defensiva já não seria tanto na bola e mais no controlo da profundidade. É uma diferença importantíssima.

Guardiola celebrou o resultado da procura das melhores ocasiões de golo. Porque num lance, em vários lances, em todo o jogo, procura pelo melhor. Não é suficiente o 1x0+Gr, quer 2x0+Gr; e chega ao absurdo de criar 3x0+Gr, coisa que se pensava já não existir nas melhores provas europeias. Mais uma vez fica a evidência de que quem tem a bola tem a vantagem, porque não são precisos muitos para atacar bem. É preciso apenas estar nas posições certas, e percorrer os melhores caminhos vezes suficientes para que a fortuna possa advir mais do nosso trabalho do que do demérito do adversário ou de outro género de imponderáveis.

Guardiola celebrou o talento que se expressou no relvado. Uma barbaridade as exibições de David Silva, Falcão, Bernardo Silva e Yaya Touré. Touré a demonstrar, com bola, como deve jogar um "6" no futebol moderno, e como gerir o passe (a procura e a espera pelo melhor passe). Falcão com mil golos, e com confiança para fazer aquelas brincadeiras num jogo de pressão máxima. O génio dos "Silvas" absolutamente assombroso a cada toque na bola. Delicioso perceber o que David rende agora no corredor central, com liberdade para criar de uma posição onde vê tudo, com o campo sempre aberto. Pernicioso que muitos reconheçam a fantástica evolução de Bernardo, o quão forte e empenhado esteve nos momentos defensivos, na reacção à perda, mas que tal como Silva há tempos atrás continuam a achar que deve jogar encostado à linha. O que Silva (o David) tentou mostrar ao mundo é que Silva (o Bernardo) será sempre muito melhor como médio ofensivo do que como extremo, ou médio ala. Seja como for, a cabeça e o pé esquerdo de Bernardo são incríveis por isso ele seria sempre notado mesmo que como Lateral Esquerdo.

Guardiola celebrou a vitória. Porque ao final das contas é ela que melhor defende um grupo de trabalho que ele tanto estima. Tem sido incansável na defesa da sua equipa, e já chegou ao ponto de questionar quem coloca dúvidas sobre os seus jogadores se alguma vez lhes tinha passado pela cabeça que podia ser ele a não ser o melhor treinador para aqueles jogadores, e não o contrário. Como sempre, Brilhante!

domingo, fevereiro 05, 2017

Yaya Touré comanda a linha ofensiva de Guardiola.

Aos 33 anos de idade o médio do City parece ter finalmente percebido que a displicência e a procura pela notoriedade que tanto o caracterizavam são inimigas da notabilidade. E o melhor de tudo é que o treinador que agora o acompanha o tem reconhecido, e tem dado ênfase ao quão notáveis têm sido as suas exibições recentes. Se há coisa que a suspensão de Fernandinho trouxe foi um maior valor para o futebol que Guardiola gosta na posição mais recuada do meio campo. O azar de Fernandinho permitiu a Guardiola perceber, principalmente nos últimos jogos, a diferença que é jogar com Touré atrás de Silva e De Bruyne. Se é certo que a equipa perde alguma agressividade na altura de recuperar posições, nos duelos, e na recuperação de bolas, o que Yaya acrescenta em organização ofensiva tem compensado tudo isso. Quando em posse, é Yaya o grande responsável pela gestão dos tempos de ataque. Define se a bola fica com a linha defensiva, ou se há condições para avançar e procurar jogadores em linhas mais adiantadas. Gere as saídas para contra-ataque, ou temporiza para que a equipa se organize e procure um ataque mais posicional. É o jogador mais capaz de ficar com a bola mesmo que pressionado em zonas recuadas, e essa segurança que ele permite ao jogo de posse tem um valor inestimável para a construção de Guardiola. Não treme com ela nos pés, e tenta procurar sempre pela melhor solução para a equipa sair. Acrescenta criatividade, qualidade técnica e pausa em relação a Fernandinho. A sua presença em campo dá mais descanso e estabilidade ao futebol de Silva e De Bruyne, uma vez que estes não precisam de se preocupar tanto em baixar para pegar em zonas mais recuadas, entrando em jogo em posições adiantadas na maior parte do tempo. Touré permite-lhes que descansem, que se foquem mais na criação, no desequilíbrio e no jogo de ataque à baliza, por ser capaz de gerir e guiar todo o processo de construção. Encontra os melhores passes, os melhores jogadores entre sectores, espera para perceber se a situação muda com uma simples pausa e se os espaço continuar fechado varia o centro de jogo com muitíssima qualidade. E mesmo quando não toca na bola, como se percebeu no jogo de hoje, principalmente na segunda parte onde Llorente parece ter recebido ordens para não o deixar jogar, guia os seus colegas para aproveitarem o espaço que fica pelo arrastamento que ele faz do seu marcador individual.

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No jogo de toque que Guardiola pede, de paciência, e de aceleração nos momentos que trabalha, Yaya tem sido o jogador mais notável do City. Parece ter as ideias todas de Guardiola na cabeça, e parece finalmente estabilizado do ponto de vista emocional por não procurar constantemente zonas adiantadas para ganhar notoriedade. É ali, na construção, e a permitir que os pequenos criem, que Yaya é rei. O Manchester City tem jogado o que Yaya os faz jogar, e quando ele não aparece como na segunda parte de hoje de imediato o futebol da sua equipa se ressente. A qualidade e o potencial de cada ataque diminui, e a equipa tende a partir nos momentos de tensão por não ter o seu toque a pisar e, e a fazer refrear os ímpetos do jogo, dos colegas, do adversário.

sábado, fevereiro 04, 2017

Uma questão de compromisso

Ao olhar para a linguagem corporal de muitos jogadores do Arsenal no momento defensivo, e rapidamente percebo que um lance absolutamente normal se pode transformar numa situação de grande potencial. Do início, ao final, foram poucos os que tiveram vontade de defender a baliza assim que o Chelsea ficou em posse. São jogadores que gozam e regozijam quando a bola lhes chega aos pés, capazes de nos por a sonhar. Mas, sem bola, absolutamente pálidos, sem reacção e resignados ao que o adversário poderá apresentar. De nada vale falar em sistemas de jogo, em dinâmicas, em posicionamentos adequados, se os jogadores não tiverem um compromisso vincado para com a equipa, para com o jogo. E isso implica agressividade e acerto nos momentos em que o jogo assim o exige. Não era preciso fazer muito para dificultar cem vezes mais o lance de ataque ao Chelsea, apenas um pouco mais de vivacidade sem bola. Um pouco mais de Bellerin!

quinta-feira, janeiro 26, 2017

Why is Ibrahimovic god?

É ímpar no universo mundial. Há muitos, mas mesmo muitos anos, que é o melhor do mundo na sua posição. Assim como Ronaldo e Messi, Ibra come numa mesa diferente de todos os outros Pontas de Lança. A personalidade cativa e suscita a curiosidade para o ver, a estampa física impressiona e faz-nos pensar que é por isso que consegue ser tão bem sucedido. Mas é uma vez mais a qualidade técnica extraordinária aliada à criatividade que nos continuam a assombrar. É por ser senhor de uma raríssima comunhão de características TOP que continua a causar nervosismo a quem o defende, desde o túnel até ao último minuto de jogo. Ele agarra em situações desfavoráveis, e movimentos que à priori não beneficiam quem recebe, e transforma em situações com muito mais potencial do que o inicialmente previsto. Zlatan Ibrahimovic é deus por conseguir executar movimentos de dentro para fora e ainda assim receber enquadrado; A ver o adversário, os colegas, o espaço.

terça-feira, dezembro 27, 2016

Pep, o Diário de Manchester. Episódio 5. Esquecemo-nos que a baliza ficava ali!

O Feedback. Fantástica a construção, a forma como a equipa consegue chegar ao último terço com a bola controlada. Aí, não se pode ficar a trocar a bola eternamente na esperança que o adversário se desequilibre. Há que encontrar os momentos certos para acelerar, e ser agressivo no ataque à baliza. Há jogadores com desequilíbrio individual, para os quais a equipa trabalha para lhes criar melhores condições para usarem esse mesmo desequilíbrio, e se esses jogadores não o fizerem não faz sentido nenhum a equipa trabalhar tanto para que eles tenham aquele momento. Jogar com o objectivo circunstancial que ainda não estava atingido, e por isso, a posse de bola "passiva" não servia os interesses da equipa.

A Tomada de Decisão. Não lhe interessa que os jogadores que encontrem momentos para ir no um contra um, ou para forçar a entrada da bola dentro da área, percam a bola nessa acção. Se encontram o momento, devem ir pra cima; se não o encontram, devem estar mais focados em encontrá-lo. Guardiola assume o risco da perda de bola para que os jogadores se sintam mais confortáveis para cumprir com a tarefa, e estejam mais focados em descobrir os momentos para arriscar mais.

O Reforço. Faz a lavagem cerebral aos jogadores demonstrando com exemplos práticos os efeitos da mudança de comportamento que pediu aos seus jogadores. Com a vitória, e com a forma como lá chegaram, os jogadores confiam um pouco mais e acreditam com mais convicção nas ideias de Guardiola.
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quinta-feira, dezembro 22, 2016

Pizzi, o que foste tu fazer... Forçar a inferioridade, não está isso "proibido"?

Em dias passados fui um dos senhores que defendia com unhas e dentes que a qualidade poderia ser medida pela forma  mais ou menos regular que uma equipa, que um jogador, procurava cumprir com os princípios de jogo. Mas a medida que o tempo passa, cada vez mais me convenço do quão curta era tal suposição, do quão longe do jogo estava a minha linha de pensamento. O futebol, tem-me ensinado, cada vez melhor, a perceber que o problema não está naquilo que eu penso (porque eu não executo), mas sim naquilo que quem tem a responsabilidade de executar vê. Portanto, dizer que uma situação de 1x1 é melhor que outra de 4x6 é curto, muito curto. Porque aquilo que eu percebo do lance por o um contra um ser uma situação, supostamente, menos complexa é completamente distinto daquilo que o jogador entende. Não vale a pena categorizar, dizer que a complexidade é maior ou menor, dizer que no absoluto os jogadores devem procurar a superioridade, evitar a igualdade, e recusar a inferioridade. Não vale porque nunca seremos nós os executantes. Jogar com o tempo, e o espaço, hoje, é o melhor que se pode pedir. Ou seja, jogar com o tempo que o jogador e o adversário têm para agir/reagir; e jogar com o espaço que disponível para atacar/defender. Alguém já pensou, por exemplo, que é muito difícil para quem defende perceber quem deve sair em contenção quando há uma grande proximidade entre os seus elementos? E que jogar nos espaços reduzidos dá muito menos tempo a quem defende para conseguir agir e reagir? Afinal, por que é que uma situação de um contra um é melhor, e menos complexa, do que uma situação de quatro contra seis? Parece-me muito curta qualquer resposta que não contemple os executantes envolvidos, e a capacidade que cada um deles tem para jogar com situações de um tipo ou de outro. Pizzi, no lance que se segue, mostra-se contra os princípios de jogo e sobretudo contra soluções pré-concebidas. Contra receitas e prescrições, ele imagina e percebe o caminho, encontra os colegas, e passa por entre os labirintos de adversários que o rodeiam.