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terça-feira, outubro 09, 2018

Obsessão pelo Ataque Posicional

No futebol as equipas conseguem golos em todos os momentos do jogo. Marcam golos de bola parada, de contra-ataque, e em organização ofensiva. Conseguem golos com mérito, golos com demérito do adversário, e obtêm golos com sorte. O futebol, com ou sem a inundação da organização táctica de hoje, sempre foi assim. Aparecem todo tipo de golos por parte de todas as equipas. Ainda que a equipa trabalhe exclusivamente para o contra-ataque, há momentos em que os golos surgem de ataque posicional. A questão que se coloca é a causalidade ou casualidade na forma como se conseguem tais golos. O Chelsea de Sarri, treinador claramente obcecado pela organização ofensiva, pelo ataque posicional, é um exemplo incrível disto: é um exemplo de causalidade na forma como consegue a maior parte dos seus golos.


Olhando para este primeiro golo do Chelsea poder-se-à concluir, e bem, que foi um golo conseguido em contra-ataque. Mas nunca poderemos ignorar a influência que o ataque posicional, que precede a perda, tem nos momentos posteriores. É um jogo ligado, e um continuum entre momentos de perda e ganho de bola. Olha-se para o momento em que se perdeu a bola e os jogadores estavam organizados de tal forma para atacar que conseguiram de imediato defender-se da perda pressionando, e fechando linhas de passe frontais sem ter que recuar as linhas. A pressão de Kante sobre o jogador que recupera e sobre o jogador que recebe o primeiro passe, seguida da pressão de Ross Barkley pelo lado cego, sem esquecer o trabalho de Jorginho e Giroud a fecharem um passe frontal e um passe atrasado respectivamente. Depois, sim, a recuperação e o contra-ataque. Mas também na forma como os contra ataques são desenhados, nas tomadas de decisão, há alguma influência da ideia do treinador. Isto é, os jogadores terão tanto mais critério na definição de qualquer tipo de lances quanto mais critério o treinador exigir em todos os momentos em que a equipa tem a bola.


Mesmo em lances de bola parada é possível encontrar um ponto de contacto entre o volume de faltas que a equipa sofre bem dentro do meio campo do adversário e a forma como procura atacar. É um treinador que trabalha imenso as bolas paradas por perceber que as equipas usam e abusam das faltas para parar os seus ataques, para quebrar a sua dinâmica, em zonas próximas da área onde costuma estar instalado. Com essa informação ele aproveita para maximizar o potencial desses lances, que se repetem muitas vezes durante o jogo.


No resumo final do jogo, com uma análise simplista, apareceria: O primeiro golo em contra-ataque, o segundo golo de bola parada e o último golo em ataque posicional, nos minutos finais quando o jogo já estava resolvido. Com um pouco mais de detalhe eu diria: dois golos que surgem como consequência do ataque posicional, sendo que o golo em contra-ataque espelha a forma como a organização ofensiva se defende da perda, e um último golo maravilhoso na forma como representa um determinado estilo de jogo.

PS: Se Sarri não é o melhor treinador do mundo por estes dias, está muito próximo disso. No final, como em anos anteriores, serão sempre os títulos a validar para a maioria a legitimidade deste último ponto. Por cá continuamos a achar o mesmo que Guardiola, "Não há melhor forma de avaliar um treinador do que olhar para um jogo da sua equipa com um copo de vinho na mão".

segunda-feira, setembro 24, 2018

The Best!


No dia em que se anuncia a decisão final sobre o prémio de melhor do mundo da FIFA, fica a questão: Fixar e soltar para deixar o meu colega numa situação de 1 ou 2x0+GR, ou soltar logo a bola sem fixar o defesa para ser eu receber o último passe e a finalizar?!

sexta-feira, setembro 21, 2018

O cérebro

"Se Jorginho é só isto, é curto para o Chelsea", Freitas Lobo.
Falta-lhe a famosa intensidade! 

Não, Luís! É precisamente por isto que Jorginho é tudo para o Chelsea. Porque executa com perfeição aquilo que o treinador idealiza. Por ser intenso no entendimento daquilo que vai acontecer, antecipa, e cria o cenário para o que ele imagina acontecer. Pensa para ele, pensa o que o treinador quer, guia os colegas, mostra o caminho. Jorginho é o cérebro do futebol de Sarri. São imensos os exemplos nesta época da liderança de Jorginho em campo. No jogo onde se ouviu tamanha barbaridade ele prega mais uma partida.

Anda, Rudiger. Vê, é por aqui!



quinta-feira, agosto 30, 2018

Isto é o Sport Lisboa e Benfica!

Em 2000 José Mourinho proferiu uma das frases mais emblemáticas, ao serviço do Benfica, numa situação com Sabry. E a frase resume de forma perfeita aquilo que é, ou deve ser, a exigência de um clube que quer continuar a qualificar-se de forma consecutiva para a maior prova de clubes na Europa. Essa cultura de exigência deve ser tida em conta nas várias frentes da organização do clube, mas sobretudo naquelas em que o clube está mais exposto por terem mais visibilidade. A equipa principal de futebol é um desses casos, e os responsáveis devem ser bastante criteriosos nas caras que escolhem para representarem o clube e que tipo de valores estão a mostrar quando jogador A é preterido por jogador B.

As escolhas nunca são fáceis e qualquer um desde Guardiola à Monchi está sujeito ao erro. Mas errar e aprender com o erro tem um valor, persistir no erro tem um valor completamente diferente. O Benfica tem nos seus quadros jogadores que permitem elevar o patamar de exigência e no lugar deles expõe de forma recorrente jogadores de menor talento.


Alfa Semedo vem ao caso pela quantidade incrível de erros que comete, e ainda assim continuar a ser aposta. É um jogador (à melhor) mediano. E é impressionante os erros técnicos que aparecem na recepção e no passe, com ou sem pressão. É de deixar no desespero para quem quer um jogo fluído a quantidade de decisões que falha. É de espantar, porque fico mesmo espantado que se tenha considerado Alfa para este patamar, a falta de intuição que tem quando defende no centro de jogo e na leitura das intenções do adversário. Mas nada, nada mesmo, me deixa mais boquiaberto do que o que ele conseguiu errar num jogo de descompressão completa (na fase em que entrou), com o jogo morto, a qualificação garantida, e o adversário sem qualquer expectativa. Uma coisa é errar com pressão, aceita-se bem melhor. Outra coisa são os erros que se sucedem em jogos deste tipo. E para os que acham que estou a ser demasiado duro ou exigente deixo que Mourinho responda por mim.


PS: sem qualquer desrespeito ou juízo de valor para com o PAOK ou qualquer outra equipa que não tenha a dimensão do Benfica.

segunda-feira, agosto 27, 2018

Bloco de Notas: FC Porto-Vitória de Guimarães.

...dos 0 aos 15 (mins)...

O Porto na versão de Sérgio Conceição é uma equipa que depende muito do perfil físico dos seus jogadores, da agressividade que eles colocam nas suas acções e da aposta nas bolas paradas, e os primeiros quinze minutos de jogo o resumem na perfeição. O Porto asfixiou, com movimentos constantes de profundidade, com uma pressão incansável em organização ou quando perdem a bola, com a agressividade em cada duelo, e com bolas paradas trabalhadas para surpreender. O Vitória, nesta fase, mal conseguiu sair do seu meio campo, tendo-o conseguido apenas por uma vez com critério. Na verdade, a falta de critério como o pouco tempo de jogo foi o que ajudou a que o Porto estivesse tão seguro e tão confiante. Isto é: os ataques do Vitória eram todos rápidos, o que beneficia o Porto que se evidencia nos duelos, sendo que o Guimarães não ganhava tempo para que os seus jogadores se colocassem nas posições, fizessem os jogadores do Porto correr mais baixando assim os índices de agressividade . Como atacavam com poucos, e em velocidade constante, o Porto foi dominador.

...dos 15 aos 30 (mins)...

Nos primeiros minutos deste fase do jogo percebe-se um melhor encaixe do Vitória no controlo daquilo que o Porto fez nos minutos iniciais, porém, em termos territoriais e de posse de bola a toada manteve-se. As bolas paradas para o Porto sucediam-se, ainda que em menor percentagem. Aqui , nota-se um ritmo de jogo mais perto daquele que o Vitória estaria interessado para conseguir pausar o seu jogo, e sair de forma apoiada. Mas, o Porto começa a tentar algumas combinações pelos espaços entre sectores que se criaram por força da reacção da linha defensiva do Guimarães que baixou alguns metros para tentar controlar a profundidade. Mais pelo corredor direito onde há Maxi, com maior competência para combinar do que Alex Telles. O Vitória termina este período a respirar melhor em organização defensiva, com um maior controlo dos movimentos nas suas costas. As faltas que ganhou, e que fez, também ajudaram a que o ritmo baixasse, e que a dinâmica de agressividade do Porto em termos ofensivos fosse mais reduzida. Também seria muito difícil manter o ritmo inicial que impunha, a velocidade de execução e a ferocidade dos movimentos durante muito tempo.

...até ao intervalo...

Este período começa com um bom lance do Porto, onde não foi feliz na definição. Mas um lance que tem aquilo para que o Porto mais trabalha: os movimentos de profundidade em organização ofensiva. Se por um lado Alex Telles por jogar ao lado do Brahimi os faz sempre por fora, Maxi do outro lado tem liberdade para escolher o corredor por onde se desmarca deixando muitas vezes a largura para Otávio explorar. Depois de uma troca de bola pelos três corredores, ainda que sempre por fora do bloco do Vitória, Maxi recebeu de Otávio já dentro da área, tendo falhado apenas o último passe. Apesar de estarem baixos, a equipa de Luís Castro não foi agressiva o suficiente no movimento defensivo que se pedia (basculação) e Maxi acabou por aparecer a surpreender. É curioso que o Vitória tenha conseguido estancar os elementos mais velozes, pelo seu posicionamento mais baixo, mas que tenha tido muita dificuldade em parar os movimentos interiores de Maxi, que solicitava tanto em combinação como na profundidade. O timing em que o fazia, e a zona que escolhia atacar eram boas. Posicionava-se do lado cego do adversário que defendia o espaço que ele atacava, e por infortúnio depois de um excelente passe de Herrera o Porto não se adianta. Já se justificava a vantagem pelo que o Porto jogava e não deixava jogar, e pelo que o Guimarães não conseguia jogar. 

...Os golos...

O primeiro golo acaba por surgir, com justiça, mas num momento em que o Vitória jogava com menos um jogador no meio campo por força da lesão de Joseph (com Tozé à espera de uma paragem para entrar no jogo), e como Welthon (o avançado) não ajustou na zona intermédia a equipa organizou-se com duas linhas de quatro para defender (1x4x4x1). Foi um grande golo de Brahimi, num movimento interior espectacular e finalização irrepreensível. Os golos mudam sempre o jogo, e ainda que não houvesse muito tempo por jogar percebeu-se uma mudança no comportamento defensivo do Porto, um tanto mais expectante e a deixar o Vitória ter um pouco mais a posse de bola. Talvez tenham percebido a proximidade do intervalo e quisessem resguardar-se para conseguir seguir em vantagem para o intervalo. E nesta fase, nas bolas paradas que são um momento em que o Porto aposta muito, chega o segundo golo.

O último quarto de hora foi muito largo e ainda houve tempo para uma ocasião de golo para o Guimarães no seguimento de uma bola parada onde André André consegue rematar dentro da área, e um remate de fora da área de Sérgio Oliveira que passou muito perto da baliza.

...do intervalo aos 60...

O jogo recomeçou com uma particularidade diferente, o Porto procurava controlar mais e sair pela certa e sem tanto risco. O  Vitória conseguiu estar um pouco mais subido e conseguiu defender não tão perto da sua baliza. E é nesta fase que acontece a lesão de Brahimi, aquele que é o maior desequilibrador do Porto, que é substituído por Corona. Com o Guimarães mais pressionante e em vantagem o jogo do Porto passou a ser, durante este tempo, de bolas longas para os movimentos de A.Pereira, de Aboubakar, Otávio ou Corona. Deixarem de subir tantos jogadores para se envolverem nos lances em organização ofensiva, e não se pressionava tanto. O Guimarães aos poucos ia subindo mais a pressão porque sentia a necessidade de alterar o resultado, e sem uma grande elaboração dos lances foi conseguindo chegar perto da baliza. Não é o que o modelo de Luis Castro preconiza, é certo. Mas a confiança que se foi ganhando com esses lances, e com um Porto mais expectante, foi lançando os jogadores do Vitória para comportamentos cada vez mais "atrevidos" do ponto de vista ofensivo. Nesta altura entrava Ola John e saia Boyd, e na altura em que se assinalava o penalti de Sérgio Oliveira saia Aboubakar para entrar Marega.

...dos 60 aos 75...

O golo de André André abre a última meia hora. O Vitória ganha confiança e cria-se dúvida no Porto. Alex Telles esteve muito em jogo nesta altura, surgindo como solução para ligar o jogo com o ataque e durante esta fase do jogo os lances acabaram invariavelmente em cruzamentos (bem ou mal). Um cruzamento de quem o executa de forma exemplar é sempre algo a ter em conta, porém a previsibilidade permite a quem defende estar mais próximo de parar o lance por se saber exactamente como ele vai terminar. A lesaõ de Corona, com a entrada de Oliver marca o início do útimo quarto de hora.

...Os últimos 15 minutos...

O golo de Tozé marca a entrada no último quarto de hora, e num lance que é o espelho do trabalho que Luis Castro quer em organização ofensiva. Houve tempo, e espaço, é certo. É um lance onde o Porto tem apenas 7 jogadores atrás da linha da bola, ainda que relativamente próximos entre si. Mas a ideia do lance em si é muito boa. Douglas defende o lance e de imediato coloca em André André que estava à entrada da área. Este conduz, e joga para o lado esquerdo em Florent que de imediato entrega para Ola John em largura. Criterioso como é hábito, o holandês orienta a recepção para o corredor central onde está João Carlos Teixeira entre linhas. A bola segue para o médio que percebe a desmarcação de Florent pelo corredor e o espaço onde Maxi estava já ligeiramente atraído pela bola, e é para lá que a bola segue. Sai o cruzamento, a recepção, e o golo de Tozé. É este tipo de futebol que Luis Castro propõe. O golo altera, novamente, o jogo. A confiança dos jogadores do Vitória sobe, e a crença que podem sair dali com um bom resultado faz com que tentem defender o empate. Sem controlo, porque o Porto volta a pegar no jogo e sobe novamente os índices de agressividade nos seus comportamentos. Obrigados a marcar mais um golo voltam a ser dominantes, e a jogar muito mais tempo no meio campo do Guimarães. De forma fortuita, sem nada fazer crer, num lançamento onde o Porto está em clara superioridade na área (Gr+5x2), a reviravolta acontece. Depois disto, e faltando apenas três minutos para os noventa, o jogo não teve grande história.

terça-feira, junho 26, 2018

O alívio do Bernardo Silva

Portugal é o campeão da Europa e ficámos satisfeitos pela vitória no torneio, mas nunca nos enganamos quanto à superioridade portuguesa sobre os outros. As competições à eliminar têm muito disto: nunca se sabe muito bem para onde vão cair as fichas uma vez que, ao contrário das provas de regularidade, é muito difícil recuperar de um erro decisivo num jogo. São poucos os jogos. Assim, os campeões destas provas tanto o podem ser de forma inequívoca ou podem cair no equivoco de julgar que a vitória foi conseguida por uma grande ideologia de trabalho. É mais difícil gerir as vitórias do que as derrotas, uma vez que o resultado final é capaz de camuflar toda uma série de erros que foram cometidos e deixar-nos a pensar que estamos a caminhar na direcção certa. A vitória é o maior catalisador de vitórias, certo. Mas só o é se formos capazes de ser fidedignos na análise e nos méritos, ou falta deles, das nossas conquistas. Não se trata de ter um modelo de jogo mais aprazível, nem tão pouco de jogar bonito; trata-se, e só, de aproximar os comportamentos colectivos daquilo que são as mais valias individuais que temos. Porque se o jogo é dos jogadores, é para eles que devemos direccionar as ideias de jogo. No final das celebrações do Euro celebramos, mas lembramos que era a altura ideal para evoluir, alterar comportamentos, criar definitivamente um plano e um modelo que fosse de encontro ao que de melhor temos por cá: talento.

E que tipo de talento temos?!


Bernardo Silva é a personificação do talento que temos por cá. Num nível muito acima da maioria, claro, mas com o tipo de perfil técnico e fantasista que Portugal sempre exportou. E se há acções de jogo que não dizem grande coisa, há outras cujo o significado é imenso: quando olhamos para  o Bernardo Silva, que nunca deve ter dado um charuto na vida, que joga o seu primeiro jogo de uma grande competição por Portugal, com um nível de desnorte tal que se predispõe a tratar a bola desta forma, aí percebes para o que a selecção veio. Basicamente, estamos a dizer ao nosso jogador mais talentoso para abdicar do talento que tem em prol da equipa, quando deveria ser a equipa a aproveitar-se do talento que ele tem para sair beneficiada. E isto, senhores, significa que qualquer coisa de muito errada se passa com o nosso futebol. Alguém nos está a tentar convencer que para se jogar ao mais alto nível deve-se abdicar do talento para se sair vitorioso, e por isso as críticas às nossas unidades mais criativas têm sido mais que muitas. As críticas aos erros individuais que todos cometem em posse, também. Contra a selecção espanhola dizia-se que não podíamos competir porque são muito fortes individualmente e são eles os donos da bola, contra Marrocos disseram que a pressão forte que exerciam condicionava os jogadores aos erros que se cometeram, contra o Irão ainda não percebi muito bem, mas não deve andar longe da falta de qualidade para jogarmos em espaços reduzidos. Afinal, somos bons no quê?!

O modelo ofensivo de Fernando Santos pode ser resumido numa frase: fujam do portador da bola para o mais longe que conseguirem! E esse modelo, apesar de num ou noutro momento poder dar a impressão de ser bastante benéfico aos nossos jogadores, é-nos prejudicial na maior parte do tempo. A equipa, pela falta de hábito de trabalhar junta para resolver problemas, entra em ciclos de erros que se sucedem até um evento importante mudar a toada do jogo (normalmente um golo). E os golos não surgem, na sua esmagadora maioria, como consequência da competência que temos em interpretar essa ideia ofensiva, mas sim por detalhes e imponderáveis que teimam em cair para nós empatarmos mais um jogo. Como é que queremos que os nossos criativos apareçam se não lhes damos soluções para eles possam ser bem sucedidos? Estamos constantemente à espera que um jogador consiga desequilibrar o jogo sozinho, sem a ajuda dos colegas, para posteriormente ser ele a aproveitar esse mesmo desequilíbrio. Na nossa forma de jogar, para além do receio em apostar-se em combinações curtas, em zonas de construção e criação não se nota a intenção de aproximação ao colega para combinar, para criar dúvida, para dar uma solução de passe diferente (vertical) que permita baralhar o jogo defensivo do adversário, tirá-lo do conforto e dar um melhor seguimento ao jogo pelo maior ganho de tempo e espaço. Ainda não percebemos a vantagem que é usar um colega para ficarmos em melhores condições de definir o lance, e por isso as queixas sobre o rendimento dos nossos criativos se aguçam. Reparem, os criativos só o são pelo trabalho que os outros lhes fazem para que possam aparecer. Aliás, a grande virtude da melhor equipa da história era essa: o entendimento de que havia que criar condições para que os jogadores certos pudessem aparecer no momento certo.


Grande golo de Quaresma! Mas o que escapou à maior parte de nós foi a participação de Adrien no golo. Não se engane! O golo só aparece pela solução de passe que o Adrien oferece ao Quaresma, que em combinação lhe permite ficar em melhores condições para definir o lance. E enquanto não percebermos o valor destas pequenas sociedades, destes pequenos envolvimentos, vamos estar sempre muito longe de competir contra os donos da bola e muito mais longe de ganhar contra um Irão qualquer.

sábado, março 17, 2018

Herança Futebolística


A complexidade do jogo assenta na dinâmica incerta que o futuro lhe confere, e é isso que impede que duas acções, que dois jogos sejam iguais. E como se trata de um jogo colectivo, ainda que o individual impere, a equipa fica um pouco mais segura se adoptar comportamentos comuns. Isto é, se for uma equipa. E para ser uma equipa o treinador deve "empurrar" os jogadores para a adopção de uma linguagem colectiva reconhecida por todos os seus elementos. Essa linguagem comum são as regularidades que as equipas treinam, sem saber como elas vão aparecer no jogo. Porém, alguns treinadores são tão capazes de modelar a natureza incerta do jogo que conseguem inclinar o campo para que o jogo seja mais próximo daquele que os seus jogadores conhecem e reconhecem do que daquele que o adversário conhece. Através da sua competência esses treinadores conseguem que o jogo tenha mais a sua identidade do que a identidade do adversário. Mas como o fazem? Direccionando, fundamentalmente, o treino para a tal linguagem colectiva que se identifica na dinâmica do jogo como consequência da dinâmica da equipa. Por exemplo, numa equipa de posse o treino deve dirigir-se para que os jogadores entendam que para ter a bola o portador necessita de apoios orientados de determinada forma, de condições para entregar e receber, e de saber que os apoios estão ali para o ajudar a resolver o problema que ele enfrenta da mesma forma que ele os ajudará quando estiverem em posse. Mas estes parâmetros de base devem estar sempre presentes uma vez que são eles que vão garantir que a linguagem comum é a posse! A melhor Herança Futebolística que um treinador pode dar aos seus jogadores é essa: garantir-lhes que estão todos a trabalhar no mesmo "idioma" para resolver os desafios que se avizinham.

Hoje em dia está muito na moda falar-se na estratégia como grande factor de desequilíbrio dos jogos, mas esquece-se que esse só será um factor tão relevante quando os jogadores forem todos equiparados e quando os modelos de jogo estiverem esgotados. Ou seja, quando as equipas estiverem tão viradas para si mesmas que consigam de forma acentuada (na esmagadora maioria dos jogos) criar condições para que o jogo que se joga seja o seu e não o do adversário. Há treinadores, mais pobres ou mais ricos nas regularidades que trabalham, que conseguem esse ascendente sobre os outros; mas só o conseguem porque não abdicam dos grandes princípios que trabalham. Fazem ajustes nas suas formas de atacar e de defender que não descaracterizam o trabalho, as dinâmicas, o idioma com que tentam durante o tempo de trabalho convencer os seus jogadores a segui-los. E sabem que só podem/devem esticar os ajustes para determinado adversário até aí porque a coerência é um princípio fundamental quando se quer transmitir uma determinada ideologia, uma forma de ver, de estar, de analisar comum. Quando a mensagem é incoerente os jogadores perdem-se a ficam sem perceber como se devem colocar, como devem reagir, quando confrontados com situações semelhantes. E aí, quando o jogador fica exposto é muito fácil culpa-lo sem perceber que não foi o mesmo que criou a confusão na própria cabeça. Quem não se lembra, por exemplo, do lance de Kovacic no clássico espanhol, onde a marcação individual que lhe foi pedida fez com que se esquecesse da bola? Foi muito fácil falar desse erro como individual, mas muito poucos disseram que aquela confusão (sair na bola ou continuar com a marcação individual) foi criada por uma instrução que lhe foi dada pelo seu treinador. Instrução essa que não era coerente e por isso abria espaço à esse tipo de erro de análise.

Os detalhes, como por exemplo a marcação individual, que alterem a linguagem colectiva de tal forma que ela se descaracterize são nocivos ao desenvolvimento e entendimento da ideologia que o treinador trabalha; mas mais nocivos do que a alteração dos detalhes é uma equipa que vive de e para os detalhes. Nessas equipas não há linguagem comum porque cada jogo, cada treino, é amplamente direccionado para aquilo que o adversário faz e não em transformar o jogo naquilo que os jogadores mais trabalham. As equipas de Mourinho têm sido isto. O treinador modela a equipa de forma diferente, com princípios diferentes, com ideias diferentes todas as semanas. E assim, é natural que os jogadores não se entendam. Se num jogo devem fechar a baliza e proteger zonas de referência e noutro devem andar atrás do adversário ainda que isso comprometa o fechar da baliza, é natural que a equipa não se entenda e que os jogadores não se convençam. Assim, é muito fácil que eles tenham sempre dúvidas. É natural que os jogadores não conheçam, nem consigam prever as incidências de cada lance, e é normal que não saibam como agir/reagir à acção de cada colega porque nenhuma acção ou reacção foi treinada de forma consistente. Nenhum princípio de jogo foi mantido do início ao fim como base pela qual a  equipa se deve nortear. No fundo a equipa de Mourinho está sempre em improviso. A única grande regularidade que tem, o único grande princípio que resiste, é a bola pelo ar no Lukaku, Pogba ou Fellaini e o consequente ataque à segunda bola. Para um jogo tão complexo e tão rico é muito pouco. E por isso, por ser uma equipa de improviso e de detalhes ditados pelo adversário, por não deixar que os jogadores se desenvolvam como equipa e que conheçam à fundo as suas forças e fragilidades dentro de determinado tipo de jogo, por não permitir que os jogadores se tornem competentes a resolver problemas de forma coerente, Mourinho deixou de ser o treinador que (estando em equipas com a responsabilidade de disputar o título) em nove anos ganhava seis "important things", para ser o treinador que nos oito anos seguintes ganhou duas, e ainda exalta as "some things" para se defender de algo que outrora criticou.

segunda-feira, fevereiro 12, 2018

A Valorização da Vitória no Momento Defensivo de um Jogo Desligado

O futebol mudou muito nos últimos anos, e continuará a mudar enquanto os jogadores continuarem a evoluir, as regras continuarem a mudar e os melhores treinadores continuarem a inventar a sua evolução. E apesar de ser impossível dizer-se com exactidão quando é que cada mudança se tornou efectiva, é possível dizer-se que as mudanças ocorrem de forma gradual e que há fases onde essas mudanças se notam menos, e parecem até estagnar. É numa destas fases onde parece que o futebol está agora. Repare: houve uma altura em que o jogo parecia estar a mudar na procura das melhores soluções ofensivas para conseguir o golo, mas não. O foco hoje é novamente o momento defensivo e sobretudo aquele que acaba com vitórias notadas sobre adversários mediáticos. Em Inglaterra, por exemplo, o futebol tenta replicar Simeone e não Guardiola. Porquê? Porque é mais fácil ser Simeone do que ser Guardiola, e é isso que o público aplaude. E ainda que não se possa criticar quem aplaude por conveniência uma vitória que cai do céu, um jogo que se permite no futebol mas que não o representa em toda a sua abrangência e complexidade, o mínimo que se exige aos agentes que tanto amam este jogo é que não relevem a mediocridade ao mesmo nível da genialidade de quem joga futebol em toda sua plenitude. Sim, é permitido jogar um jogo de um só momento e totalmente desligado. Sim, esse jogo vai conseguir vitórias derrotas e empates. Sim, esse jogar vai conseguir feitos que se vão se fazer notar pelo resultado. Mas tal ideia nunca será uma obra de relevo.

O Momento Defensivo de um Jogo Desligado. Defender é mais fácil do que atacar e por isso a maioria escolhe focar-se nisso. E como o jogo é um todo e não se pode analisar um momento sem ter em conta o efeito que tem nos outros, escolhe-se partir o jogo para de forma simplista se explicar a superioridade de uns sobre outros. Por ser mais fácil de explicar o momento defensivo é também o mais discutido e o mais focado nas análises táctico-estratégicas. Mas qual é, afinal, o real valor desse momento tendo em conta o objectivo do jogo? Todo. Mas, nunca podemos valorizar o momento defensivo apenas pelo que ele permite na defesa da baliza, uma vez que é esse mesmo momento que vai permitir depois da recuperação da bola o início do momento ofensivo. Isto é, passa-se a vida a elogiar posicionamentos e estratégias para defender a baliza sem pensar que depois da recuperação da bola é aquele posicionamento que permite de forma melhor ou pior o início do ataque. Por exemplo: Não vejo dizer que defender com 10 homens nos últimos 30 metros vai causar dificuldade na transição ofensiva. Não vejo dizer que, os espaços super reduzidos em que a equipa se coloca quando defende por estratégia, ou por modelo, vão possibilitar ao adversário mais facilmente recuperar a bola e voltar a atacar do que a quem defende sair daquele espaço com condições para tentar marcar golo. Não tenho lido que quando vais HxH, e deixas que seja o adversário a ditar para onde vão os jogadores da tua equipa, recuperas a bola e os espaços que os teus jogadores ocupam não são uniformes e condizentes com aqueles que trabalhas para eles aparecerem no momento ofensivo. E que essa alteração, do tempo que o jogador tem para chegar à posição que pretendes, é benéfica para quem perdeu a bola voltar a recupera-la. Não tenho visto dizer que o momento defensivo não é apenas aquele em que a bola está próxima da baliza, e que as opções sobre onde ser agressivo sobre a bola têm peso na hora exultar a defesa. O momento defensivo tem sido analisado pela máscara de comportamentos que permitem determinadas coisas, e têm sido ignoradas as consequências negativas e os benefícios para o adversário. No fundo, tem sido elevado pela vitória. Se uma equipa altera a sua formação e no final vence vai daí que a vitória surgiu do trabalho defensivo e da preparação, ainda que o adversário tenha criado situações suficientes para trucidar. O jogo não é isto. O momento defensivo não pode ser apenas valorizado por aquilo que permite perto da baliza, e tão pouco pelo que permite na defesa da mesma. O futebol é um jogo onde atacas a defender e defendes a atacar. E custa-me cada vez mais perceber que o jogo está a ser desvalorizado ao jogar-se com apenas uma baliza, e num sentido oposto a sua própria lógica.

A Vitória. Apesar de todo o crescimento do jogo, do entendimento do jogo, a vitória continua e continuará por certo a ser o principal catalisador de opinião favorável ou desfavorável sobre uma determinada equipa, sobre a ideia que coloca em campo, e sobre o valor dos seus jogadores. Uma equipa que ganhe tenderá sempre a ser sobrevalorizada, e recairá sempre sobre ela a procura de respostas para o resultado daquele jogo. Nós já não vemos os jogos e usamos o resultado como princípio para explorar a nossa análise e formar a nossa opinião sobre o porquê do jogo ter seguido aquele rumo. Como o nosso ponto de partida já leva o pressuposto de que para ter ganho a equipa deve ter tido pontos de superioridade fundamentais para a outra a análise já começa viciada. Talvez por isso não seja hoje raro, mesmo nos mais badalados analistas, ver criticas e elogios a comportamentos semelhantes; ver mudanças de opinião radicais sobre o que era e sobre o que foi antes e depois de se olhar para o resultado final. O jogo é simples, de facto. E é no entendimento dessa simplicidade que está complexidade que lhe atribuem. Criar situações de golo, não permitir que o adversário crie. Neste sentido! Do ataque para a defesa. E digo neste sentido porque não há (salvo situações em que o empate serve para cumprir o objectivo) jogador, treinador, ou adepto que não queira ganhar o jogo. E se assim é, como é possível elogiar ou dar mérito à uma equipa que ganhou por ter marcado na única situação que criou e concedeu seis ocasiões de golo ao adversário? O que há afinal para elogiar aí? O de sempre, agora simulado pela sobrevalorização de certos comportamentos tácticos e individuais que no fundo não tiveram preponderância nenhuma. No dia em que todos percebermos que a maior parte dessas vitórias foram conseguidas com base no desacerto do adversário, um factor que ninguém controla, aí sim estaremos mais perto de dar o próximo salto evolutivo no jogo.

sábado, outubro 21, 2017

Não te adaptes! As convicções são a diferença que te caracteriza...

O contexto tem sido o maior motivador para que se expliquem as maiores mudanças, e as diferenças mais evidentes entre o jogo que um e outro treinador idealiza. E a adaptação, a mudança da forma de jogar de equipas do mesmo treinador, tem sido a virtude mais elogiada nos treinadores actualmente. Defendo, naturalmente, que cada treinador deve optar por aquilo que sente, uma vez que só sentindo conseguirá convencer os seus jogadores a seguirem a sua ideologia. Porém, ficam sempre algumas questões pendentes. Será a adaptação ao contexto, seja lá o que contexto for, a melhor resposta para fazer evoluir uma equipa nos seus comportamentos, para que se torne mais eficiente na resolução dos problemas do jogo? Dever-se-à comprometer toda uma ideologia, e toda uma forma de jogar e de treinar, todos os grandes princípios, em função da especificidade de um jogo, de uma equipa, de um jogador adversário, de uma cultura? Se adaptação fosse a melhor resposta, como é que fenómenos como Sarri ou Pochettino vingam de forma tão estrondosa?

Num campeonato onde todos procuram por duelos, onde o jogo de primeiras e segundas bolas é disputado com a bola no ar, sempre com muita ferocidade, podemos optar por dois tipos de abordagem:  

- A adaptação. Colocar jogadores mais fortes nos duelos, retirar os menos aptos a vencer duelos e disputas de bola no ar. No fundo, abdicar do talento que é a bandeira habitual da equipa por outro tipo de talento do qual a equipa não faz uso regular. Recuar a equipa nos momentos de organização defensiva para atacar a bola de frente, colocar menos gente no processo ofensivo e mais em posições mais conservadoras (em posse). Ao fim ao cabo, retirar referências habituais em termos de posição, de espaços e de linhas de passe. Seguir um caminho que todos os outros seguem para não ficar em desvantagem.

- A alteração do contexto em nosso favor. Tentar ao máximo retirar os duelos, e a influência da nossa fragilidade nas disputas no ar, do jogo. Convencer os jogadores a fazerem um jogo ligado, de passe curto, onde a equipa chegue junta ao último terço. Um jogo onde a equipa procure caminhos que fogem ao choque, com a bola no chão, e onde é ela que se move rapidamente enquanto os jogadores caminham para as melhores posições para atacar a área adversária. Um jogo onde a equipa não despacha cada bola, tendo em conta que quanto mais rápido a bola for colocada no ar, na disputa, mais rapidamente o adversário terá possibilidade de expor as nossas fragilidades. No fundo, transformar toda uma dinâmica de jogo no lugar de sermos transformados por ela, e com isso obrigar o adversário a adaptar-se a um jogo que não estão habituados a jogar. Seguir um caminho distinto para conseguir ganhar vantagem.

Os meus maiores momentos de aprendizagem, no jogo têm sido com gente que me é mais próxima, e é com eles que vou cada vez mais solidificando as convicções e afinando as ideias. Foi perguntado a um treinador bi-campeão nacional e vencedor de duas taças de Portugal consecutivas, com quem trabalhei e privei de muito perto, o que mudaria se fosse ele o treinador da equipa que ficou no último lugar - "Nada. Eu também teria descido de divisão". Foi essa a resposta, uma vez que foi a qualidade da equipa, dos jogadores, a ditar a descida de divisão por melhor que fosse o treinador. Se a equipa vai descer de divisão, se vai ter dificuldade, resta-nos apenas escolher a forma de perder... Então, o que é afinal o contexto? O contexto não é nada mais do que as escolhas que nós fazemos para a nossa equipa, para o nosso jogo. O contexto é o caminho que indicamos aos nossos jogadores quando colocámos no onze inicial jogadores com determinadas virtudes em detrimento de outras, e são as respostas que encontramos para resolver os problemas que nos aparecem no jogo. O contexto é a diferença entre encontrar uma possível solução para o problema, ou alterar a problemática em questão. 

No futebol há várias certezas: Vamos marcar e sofrer golos, vamos ganhar, perder, e empatar jogos, e a única palavra que temos a dizer sobre isso é na forma como isso vai acontecer...pelo caminho que escolhemos percorrer com aquele grupo. Por isso, por ser só uma questão de escolhas, o meu maior elogio será sempre para quem consegue alterar todo um contexto, e convida quem joga e quem vê jogar a retirar sensações positivas de um jogo que vive na própria cabeça. E todos os anos, para a esmagadora maioria dos treinadores que alegam ser o contexto a principal razão para um jogo menos ligado, menos organizado, menos aprazível, aparecem fenómenos que nas mesmas condições, que em contexto semelhante, procuram por respostas diferentes e fazem escolhas que nos espantam. Tudo por uma questão de convicção, de conforto no treino, e de maior afinação num determinado tipo de ideologia.

domingo, agosto 27, 2017

Atracção pela bola. Pêpê.

Há jogadores que se surpreendem pela postura do adversário, por não terem a capacidade de antecipar os movimentos dos mesmos. E há jogadores que conseguem jogar com as expectativas do adversário de tal forma que conseguem desmontar e desequilibrar qualquer esquema defensivo. A questão dos desequilíbrios é que a maior parte deles, por se realizarem longe dos momentos de notoriedade, passam despercebidos. Principalmente quando os jogadores jogam com as intenções do adversário e usam o passe para executar o que lhes vai na cabeça. A gestão da bola, é isso que faz a diferença entre os bons e os grandes. Porque independentemente da defesa ser individual, ou zonal, quem tem a bola tem a possibilidade de chamar a si todas as atenções, e com isso conseguir ditar o rumo da jogada. Saíram do Seixal dois talentos extraordinários no entendimento deste princípio de atracção: um deles não foi aproveitado na Luz e farta-se de chamar à si a pressão para deixar colegas em melhores condições para dar seguimento aos lances, no Manchester City; o outro está neste momento emprestado ao Estoril.

É possível que, por o lance não ter tido o aproveitamento devido, a qualidade e raridade da acção de Pêpê não tenha ficado na retina. Até porque num momento em que a equipa perdia por dois golos de diferença, e faltavam apenas onze minutos para o final do jogo, esperava-se que o jogo fosse mais precipitado no sentido da baliza adversária. A calma e tranquilidade do menino com as voltas que parecem eternas, em condução de um lado para o outro na tentativa de ganhar espaço e perceber melhores soluções, na tentativa de mover o adversário e libertar colegas, chegam para irritar quem gosta de ver a bola chegar rapidamente perto das balizas, ainda que as condições não sejam as melhores. Porém, ele resiste ao ímpeto do resultado e do tempo, chama à atenção do adversário, faz mover o bloco do Sporting, e liberta para o corredor de onde a bola vinha criando uma situação de 2x1. Seja com defesa zonal ou marcação individual ninguém resiste ao chamado do portador da bola enquanto ele à movimenta perto do bloco ou do jogador que defende, e perceber esse principio é mais de meio caminho andado para resolver os problemas que o jogo coloca quando em posse; Porque o brilhantismo começa quando tens a capacidade de levar o teu adversário para onde quiseres.

sábado, junho 17, 2017

Futebol em preto, branco e cinzento

O futebol é um jogo em que no final de uma competição alguém sairá vencedor...sempre. E desse ponto de partida percebe-se que, a condição fundamental para cortar a meta em primeiro lugar é lá estar. Isto é, qualquer um arrisca-se a ganhar desde que esteja inscrito na competição. E, a não ser que se considere um grande mérito estar inserido numa qualquer prova de futebol, o ganhar por si só não revela competência ou qualidade por parte da equipa que sai vitoriosa no final. Nem os jogadores têm mais qualidade do que os outros por terem vencido, nem o treinador tem mais competência por ver a sua equipa coroada com a vitória final. Pode, sem ser absurdo nenhum, uma equipa vencer o campeonato e as provas europeias sem treinador, por ser individualmente muito superior. E é aqui que começa o preto e o branco.

O preto é o principal atalho para uma equipa conquistar os objectivos a que se propõe: o jogador. O grande desequilibrador, à priori, de jogos de futebol, é a diferença de qualidade dos jogadores. E mais uma vez, a diferença não está em quem sai vitorioso no final do jogo, mas sim na forma que cada um joga o jogo. Isto é subjectivo? Não. O futebol é um jogo que tem regras, e as regras dizem que, por exemplo, se fizeres falta dentro da tua grande área a equipa será punida com um pontapé de penalti. Ou seja, um jogador que esteja constantemente a fazer faltas dentro da grande área é um jogador que está a jogar mal o jogo, por estar a diminuir com as suas acções as probabilidades de êxito da equipa. E é, portanto, um jogador de menos qualidade do que um que não esteja de forma constante a fazer faltas dentro da grande área. Se uma equipa quer ganhar consecutivamente o passo fundamental a dar é ser mais forte do que a concorrência na qualidade individual dos jogadores. São eles que jogam, que fazem a bola rolar, que marcam golos, e que resolvem os problemas do jogo. Portanto, a aposta incondicional deve ser neles, porque quem tiver os melhores jogadores, com ou sem treinador, será sempre o maior candidato a conquistar as provas em que está inserido.

Há porém outros factores de desequilíbrio no jogo. Factores externos, que vão influenciar a performance dos jogadores. O branco. A forma como o arbitro guia o jogo, o maior ou menor estado de inspiração ou confiança do jogador, o clima, o estado do campo, o ruído exterior dos agentes do clube ou dos meios de comunicação, o público, as relações pessoais do jogador, a sorte, etc. É um jogo que impõe uma interacção tal de seres humanos que são incontáveis os imponderáveis que no final influenciam o desfecho de um jogo e de uma competição. O branco, juntamente com o preto, é o que faz do futebol este desporto apaixonante onde quem parte em larga desvantagem pode sempre sonhar com a glória da vitória final. É o desporto que faz, como muito poucos, aparecer o cinzento.

Falando mal e depressa, o cinzento são os problemas que o treinador tenta resolver. É isso que distingue os treinadores dos cozinheiros. O treinador resolve problemas do jogo, o cozinheiro resolve problemas de cozinha. Se não é para não resolver problemas, o que está lá o treinador a fazer então? Qual é o grande mérito de alguém que está lá para fazer um trabalho e não consegue, ainda que no final vença? Voltemos ao início: Venceu porque alguém tinha que o fazer. E, se não se percebe o seu toque na performance da equipa por que motivo se tenta procurar na sua figura algum mérito em particular? Vivemos numa sociedade onde todos procuram por justificações, factos, para explicar o sucesso de determinada figura ou de determinado evento. E por isso, por andarem todos a fazer o mesmo, a conclusão é sempre igual. Por exemplo, no futebol, se um treinador ganha e ninguém percebe exactamente o dedo do treinador nos padrões de jogo da equipa, ou se esses mesmos padrões são pouco evoluídos e não deveriam dar resposta aos problemas que o jogo apresenta, então torna-se unânime que a vitória foi da liderança do treinador. A conclusão é sempre a mesma, porque andam todos a fazer a mesma pergunta, sobretudo a nova e mais formada classe dos treinadores: Qual é o mérito do treinador nisto? Mas, a pergunta já assume que algum mérito de peso há de ter. Já vai viciada. Quando aparece alguém a questionar esse método, a dizer que uma equipa pode ganhar independentemente do treinador, ou que o mérito do treinador é tanto quanto o mérito do observador dos adversários (há mérito, mas não é de todo fundamental para o sucesso), de imediato causa estranheza. Porque, mais uma vez, anda tudo a perguntar o mesmo.

O Leicester é um bom exemplo para este caso: o mundo do futebol rendeu-se à competência colectiva, e à liderança do treinador que os guiou ao título. Tinha que haver algum mérito nas ideias de jogo arcaicas de Ranieri, e o resto era a forma como geria o plantel. Era uma equipa, por exemplo, fortíssima nas bolas paradas defensivas e ofensivas, por mérito do treinador. Foi o trabalho desses momentos do jogo que permitiram que esse factor, as bolas paradas, se revelassem tão eficazes. Passado uns meses, com o mesmo treinador e tendo apenas perdido um jogador (que para as bolas paradas pouco importante era), passaram a marcar muito pouco de bola parada, e sofriam quase sempre nos mesmos lances. O que se passou? Mais uma vez, turvados pela visão do sucesso circunstancial, todos perguntavam o mesmo, e por isso, a resposta foi uma só. Hoje, gostaria de perceber qual é a explicação para o défice colectivo nas bolas paradas da mesma equipa, e para a quebra das qualidades de líder de Ranieri. Por exemplo, não será no aperto, na dificuldade, que melhor se percebe a capacidade de liderar de alguém?

Bom, voltando ao cinzento, a responsabilidade do treinador é tentar ao máximo retirar o efeito dos imponderáveis sobre a performance dos seus jogadores. Isto é, tornar o jogo mais limpo e mais simples para eles, para que possam evidenciar as melhores qualidades e esconder os defeitos. E é pela linguagem colectiva, pelos padrões de jogo, que o treinador o faz. Assim como um cozinheiro o faz pela forma como confecciona os seus pratos, o método no futebol também importa. Um método melhor, que resolva melhor os problemas do jogo, é um método que perdura ao longo do tempo. Mas, para tal, é preciso que também perdure no treino. Porque, não há mudanças duradouras que se façam com pouco tempo de prática. E o que parece hoje é acreditar-se que o sucesso circunstancial é que dita tais mudanças. É como aquela sensação que se tem quando, por exemplo, se toca piano pela primeira vez. Naquele dia sentes-te o super homem, e com uma capacidade brutal, porque vais melhorando muito, em muito pouco tempo. Porém, passados dois dias sem tocar regressas à realidade e percebes que afinal não tinhas aprendido nada. E muitos treinadores hoje, ao fim de duas ou três semanas desistem de uma forma de jogar e de treinar porque os jogadores não estão a executar como querem. Talvez as ideias não estejam tão afinadas, não sejam tão sólidas. 

Vou, mais uma vez, fazer uma oposição entre Mourinho e Guardiola. Pogba diz que Mourinho é bom porque ganha, que é especial por isso. Kompany diz que Guardiola é especial porque nunca tinha visto o City pressionar tanto, ter tanta bola, chegar tantas vezes com perigo, dominar tanto as incidências do jogo. Disto, ficam sinais de que as mudanças que Guardiola tenta operar (pela aprendizagem) serão mais duradouras e relevantes do que as de Mourinho (pela vitória de uma forma qualquer). Isto é, enquanto Guardiola procura durante a semana provocar uma mudança nos seus jogadores para que procurem pelas melhores formas de jogar futebol, Mourinho procura por estratégias em cada semana para derrubar aquele adversário em particular. De um dia para o outro, de uma semana para outra, é natural que os jogadores de Mourinho se comportem de forma diferente, e que depois de aparentemente terem aprendido já não saibam repetir o comportamento ainda que a circunstância o peça na semana seguinte. Porque foi uma aprendizagem circunstancial, de curto prazo, e por isso não perdura. E se é claro que os treinadores devem procurar por jogadores que vão mais de encontro à sua forma de jogar, é no treino que, pela repetição, os jogadores se aproximam do que o treinador pede. É uma tarefa difícil! Muito difícil, sem dúvida. Mas se o treinador apenas serve para treinar e jogar na sua ideia de jogo, com jogadores que já estão dentro desse idealismo,  qual é a diferença entre ter um treinador, ou contratar apenas jogadores dentro daquela ideia e ter no lugar do treinador um cozinheiro? Onde está, afinal, a competência do treinador? Se a qualidade do treinador não está presente na forma como a equipa se apresenta em campo, então está no quê?

O treinador, hoje, esconde-se por trás da qualidade dos jogadores para justificar que a sua equipa não jogue o jogo que ele idealiza. Mas então, das duas uma: ou o treinador escolhe muito mal os projectos e os jogadores, ou então não tem competência para tentar convencer os seus jogadores de que há outros caminhos mais prováveis para o sucesso, e que esses caminhos serão menos de circunstância e mais duradouros do que outros. Claro que, um jogador preto será sempre preto e um jogador branco será sempre branco. Mas, se o treinador persistir na procura de novas soluções para resolver o problema do afastamento que existe entre a sua concepção de jogo e a forma como o jogador interpreta o jogo, o preto e o branco poderão tornar-se um pouco cinzentos. E essas pequenas mudanças só poderão ocorrer com a exposição dos jogadores ao erro dentro de uma determinada ideologia no treino, e no jogo. Porque é pelo erro que ele vai descobrir os seus caminhos dentro daquela forma de operar.

As grandes equipas da história tiveram uma coisa em comum: Controlavam a bola e o espaço. Isso significa que quando tu tens a bola tu mandas no jogo, e quando defendes controlas o espaço. Arrigo Sacchi.